O ANALISTA DE PAG
Luis FERNANDO VERSSIMO

       O analista de Bag-'

                                               EDITORA RECO RD
                                          RIO DE JANEIRO - SO
PAULO

       ndice

        Luis Fernando Verssimo

       Reviso: J Saldanha

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        O Analista de Bag ................?
        Brincadeira .......................lo
        O Casamento .......................13
        Irmos ............................19
        Outra do analista de Bag .........23
        Palavreado ........................26
        Defenestrao .....................29
        Anglica ..........................32
        Outra do analista de Bag .........36
        O Nariz ...........................39
        Mais palavreado ...................43
        Histrias de bichos ...............4?
        Sfot poc ..........................51
        Di logo
        Recital
        Suspiros ..........................62
        Outra do analista de Bag .........65
        Dona Gerda ........................6?
        Conversas de bar ..................?1


        O Assalto . .......................?5
        Direitos humanos ..................?9
        Lixo. * ...........................*  R3
        Exquias ..........................   8?
        Outra do analista de Bag .........91
        Cachorros, ........................94
        O Manual sexual ...................98
        O Dia da amante
.................................................     1O5
        Outra do analista de Bag .........112
        Pquer intermin vel (1) ...........114
        Pquer intermin vel (11) ..........116
        Pquer intermin vel (111) .........................
118
        Decadncia ........................12O
        Posto 5 ...........................123
        Entrevista com o analista de Bag .   126

       O Analista de Bag*

         Certas cidades no conseguem se livrar da reputao
injusta
       que, por alguma razo, possuem. Algumas das pessoas
mais sen-
       s veis e menos grossas que eu conheo vem de Bag,
assim como
       algumas das menos afetadas so de Pelotas. Mas no
adianta. Es-
       tas histrias do psicanalista de Bag so provavelmente
apcrifas
       (como diria o prprio analista de Bag, histria
apcrifa  mentira
       bem educada) mas, pensando bem, ele no poderia vir de
outro
       lugar.
         Pues, diz que o div no consultrio do analista de
Bag  for-
       rado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha
e p no
       cho.

         - Buenas. V  entrando e se abanque, ndio-velho.
         - O senhor quer que eu deite logo no div?
         - Bom, se o amigo quiser danar uma marca, antes,
esteja a
       gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e
charlando que
       nem china da fronteira, pra no perder tempo nem
dinheiro.
         - Certo, certo. Eu...
         - Aceita um mate?
         - Um qu? Ah, no. Obrigado.
       me.

       - Pos desembucha.
       - Antes, eu queria saber. O senhor  freudiano?
       - Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
       - Certo. Bem. Acho que o meu problema  com a minha

       - Outro
       - Outro?
       - Complexo de dipo. D  mais que pereba em moleque.
       - E o senhor acha
       - Eu acho uma p"ca vergonha.
       - Mas
       - Vai te met na zona e deixa a velha em paz, tch!

       a

         Contam que outra vez um casal pediu para consultar,
jun-
       tos, o analista de Bag. Ele, a princpio, no achou
muito ortodo-
       xo,

         - Quem gosta de aglomeramento  mosca em bicheira...
         Mas acabou concordando.
         - Se abanquem, se abanquern no m s. Mas que parelha
       buenacha, tch. Qual  o causo?
         - Bem - disse o home -  que ns tivemos um desenten-
       dimento...
         - Mas tu tambm  um bagual. Tu no sabe que em
mulher
       e cavalo novo no se mete a espora?
           Eu no meti a espora. No , meu bem?
           No fala comigo!
           Mas essa a t  mais nervosa que gato em dia de
faxina.
           Ela tem um problema de carncia afetiva...
           Eu no sou de muita frescura. L  de onde eu venho,
ca-
       rncia afetiva  falta de homem.
         - Ns estamos justamente atravessando uma crise de
rela-
       cionamento porque ela tem procurado experincias extra-
       conjugais e...
         - Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha  que nem
luva
       de maquinista? To folgada que qualquer um bota a mo?
         - Ns somos pessoas modernas. Ela est  tentando
encon-
       trar o verdadeiro eu, entende?

       8

       - Ela t  procurando o verdadeiro tu nos outros?
       - O verdadeiro eu, no. O verdadeiro eu dela.
       - Mas isto t  ficando mais enrolado que lingia de
venda.
       Te deita no pelego.
       - Eu?
       - Ela. Tu espera na salinha.
       9
       Brincadeira

         Comeou como uma brincadeira. Telefonou para um co-
       nhecido e disse:
         - Eu sei de tudo.

       guida:

       Depois de um silncio, o outro disse:
       - Como  que voc soube?
       - No interessa. Sei de tudo.
       - Me faz um favor. No espalha.
       - Vou pensar.
       - Por amor de Deus.
       - Est  bem. Mas olhe l , hein?
       Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.
       - Sei de tudo.
       - Co-como?
       - Sei de tudo.
       - Tudo o qu?
       - Voc sabe.
       - Mas  impossvel. Como  que voc descobriu?
       A reao das pessoas variava. Algumas perguntavam em
se-

       - Algum mais sabe?

       10

          Outras se tomavam agressivas:
          - Est  bem, voc sabe. E da?
          - Da, nada. S queria que voc soubesse que eu sei.
          - Se voc contar para algum, eu
          - Depende de voc.
          - De mim, como?
          - Se voc andar na linha, eu no conto.
          - Certo.
          Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.
          - Eu sei de tudo.
          - Tudo o qu?
          - Voc sabe.
          - No sei. O que  que voc sabe?
          - No se faa de inocente.
          - Mas eu realmente no sei.
          - Vem com essa.
          - Voc no sabe de nada.
          - Ah, quer dizer que existe alguma coisa para saber,
mas eu
        que no sei o que ?
          - No existe nada.
          - Olha que eu vou espalhar
          - Pode espalhar que  mentira.
          - Como  que voc sabe o que eu vou espalhar?
          - Qualquer coisa que voc espalhar ser  mentira.
          - Est  bem. Vou espalhar.
          Mas dali a pouco veio um telefonema.
          - Escute. Estive pensando melhor. No espalha nada
sobre

       aquilo.

          - Aquilo o qu?
          - Voc sabe.
          Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia
algum se
       aproximava dele e sussurrava:
          - Voc contou para algum?
          - Ainda no.
          - Puxa. Obrigado.



         Com o tempo, ganhou uma reputao. Era de confiana.
       Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de
empre-
       go. O sal rio era enorme.

       11
         - Por que eu? - quis saber.
         - A posio  de muita responsabilidade - disse o
amigo.
       - Recomendei voc.
         - Por qu?
         - Pela sua discrio.
         Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre
todos mas
       nunca abria a boca para falar de ningum. Alm de bem
informa~
       do, um gentieman. At que recebeu um telefonema. Uma
voz
       misteriosa que disse:
         - Sei de tudo.
         - Co-como?
         - Sei de tudo.
         - Tudo o qu?
         - Voc sabe.
         Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos
es-
       tranharam o seu desaparecimento repentino.
Investigaram. O
       que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto
numa praia
       remota. Os vizinhos contam que uma noite vieram muitos
carros
       e cercaram a casa. V rias pessoas entraram na casa.
Ouviram-se
       gritos. Os vizinhos contam que a voz que mais se ouvia
era a dele,
       gritando:
         - Era brincadeira! Era brincadeira!
         Foi descoberto de manh, assassinado. O crime nunca
foi
       desvendado. Mas as pessoas que o conheciam no tm
dvidas
       sobre o motivo.
         Sabia demais.

       12

       O Casamento

         - Eu quero ter um casamento tradicional, papai.
         - Sim, minha filha.
         - Exatamente como voc!
         - timo.
         - Que msica tocaram no casamento de vocs?
         - No tenho certeza, mas acho que era Mendelssohn. Ou
       Mendelssohn  o da Marcha Fnebre? No, era Mendelssohn
       mesmo.
         - Mendelssohn, MendeIssohn... Acho que no conheo.
       Canta alguma coisa dele a.
         - Ah, no posso, minha filha. Era o que o rgo
tocava em
       todos os casamentos, no meu tempo.
         - O nosso no vai ter rgo,  claro.
         - Ah, no?
         - No. Um amigo do Varum tem um sintetizador
eletr"ni-
       co e ele vai tocar na cerim"nia. O Padre Tuco j
deixou. S que
       esse Mendelssohn, no sei,no...
         - E, acho que no sintetizador no fica bem...
         - Quem sabe alguma coisa do Queen...
         - Quem?
       13
          - O Queen.
          - No  a Queen?
          - No. O Queen.  o nome de um conjunto, papai.
            Ah, certo. O Queen. No sintetizador.
            Acho que vai ser o maior barato!
            S o sintetizador ou
            No. Claro que precisa ter uma guitarra eltrica,
um bai-
       xo eltrico
          - Claro. Quer dizer, tudo bem tradicional.
          - Isso.
         - Eu sei que no  da minha conta. Afinal, eu sou s
o pai
       da noiva. Um nada. Na recepo vo me confundir com um
gar-
       om. Se ainda me derem gorgeta, tudo bem. Mas algum
pode
       me dizer por que chamam o nosso futuro genro de Varum?
         - Eu sabia...
         - O qu?
         - Que voc j  ia comear a implicar com ele.
         - Eu no estou implicando. Eu gosto dele. Eu at o
beijaria
       na testa se ele algum dia tirasse aquele capacete de
motoqueiro.
         - Eles nem casaram e voc j  est  implicando.
         - Mas que implicncia?  um timo rapaz. Tem uma boa
       cabea. Pelo menos eu imagino que seja cabea o que ele
tem de-
       baixo do capacete.
            um belo rapaz.
           E eu no sei? H  quase um ano que ele freqenta a
nossa
       casa diariamente.  como se fosse um filho. Eu ...s vezes
fico espe-
       rando que ele me pea uma mesada. Um belo rapaz. Mas
por que
       Varum?
            o apelido e pronto.
           Ah, ento  isso. Voc explicou tudo. Obrigado.
           Quanto mais se aproxima o dia do casamento, mais
in-
       trat vel voc fica.
         - Desculpe. Eu sou apenas o pai. Um inseto. Me
esmigalha.
       Eu mereo.

       - A xar !

       o

       14

          - i, Varum, como vai? A sua noiva est  se
arrumando.
       Ela j  desce. Senta a um pouquinho. Tira o capacete
          - Essa noivinha
          - Vocs; vo ao cinema?
          - Ela no lhe disse? Ns vamos acampar.
          - Acampar? S vocs dois?
          - . Qual  o galho?
          - No.  queSei l .
          - j  sei o que voc t  pensando, cara. Saquei.
          - ! Voc sabe como 
          - Saquei. Voc est  pensando que s ns dois, no
meio do
       mato, pode pintar um lance.

       gatona!

       - No mnimo isso. Um lance. At dois.
       - Mas qual, xar . No tem disso no. Est  em falta.
i,

         - Oi, Varum. O que  que voc e papai esto
conversando?
         - No, o velho a t  preocupado que ns dois,
acampados
       sozinhos, pode pintar um lance. Eu j  disse que no tem
disso.
         - O, papai. No tem perigo nenhum. Nem cobra. E qual-
       quer coisa o Varum me defende. Eu Jane, ele Tarzan.
         - S no dou o meu grito para proteger os cristais.
         - Vamos?
         - Vaml ?
         - Mas... Vocs vo acampar de motocicleta?
         - De motoca, cara. V -rum, v -rum.
          - Descobri por que ele se chama Varum.
          - O qu? Voc quer alguma coisa?
          - Disse que descobri por que ele se chama Varum.
          - Voc me acordou s para dizer isto?
          - Yoc estava dormindo?
          - E o que eu costumo fazer ...s trs da manh, todos
os dias.
       Voc no dormiu?
          - Ainda no. Sabe como  que ele chama ela? Gatona.
Por
       um estranho processo de degenerao gentica, eu sou
pai de uma
       gatona. Varum e Gatona, a dupla dinmica, est  neste
momento,
       sozinha, no meio do mato.
          - Ento  isso que est  preocupando voc?

       15
         - E no  para preocupar? Voc tambm no devia estar
       dormindo. A gatona  sua tambm.
         - Mas no tem perigo nenhum!
         - Como, no tem perigo? Um homem e uma mulher, den-
       tro de uma tenda, no meio do mato?
         - O que  que pode acontecer?
         - Se voc j  esqueceu,  melhor ir dormir mesmo.
         - No tem perigo nenhum. O m ximo que pode acontecer
        entrar um sapo na tenda.
         - Ou voc est  falando em linguagem figurada ou eu 
que
       estou ficando louco.
         - Vai dormir.
         - Gatona. Minha prpria filha...
         - Voc tambm tinha um apelido pra mim, durante o
nos-
       so noivado.
         - Eu prefiro no ouvir.
         - Voc me chamava de Formosura. Pensando bem, voc
       tambm tinha um apelido.

       envenenado.

       - Por favor. Reminiscncias no. Comi faz pouco.
       - Kid Gordini. Voc no se lembra? Voc e o seu Gordini

         - To envenenado que morreu, nas minhas mos. Um dia
       levei num mecnico e disse que a bateria estava ruim.
Ele disse
       que a bateria estava boa, o resto do carro  que tinha
que ser tro-
       cado.

          - Viu s? E voc se queixa do Varum. Kid Gordini!
          - Mas eu nunca levei voc para o mato no meu
Gordini.
          - No levou porque meu pai mataria voc.
          - " o qu?
          - Voc me deu uma idia. Assassinato
          - No seja bobo.
          - Um golpe bem aplicadoNa cabea no porque ela est
       sempre bem protegida. Sim. Kid Gordini ataca outra vez
          - O que voc tem  cime.
          - Nisso tudo, tem uma coisa que me preocupa acima de
tu-
       do. Acho que  o que me tira o sono.
          - O qu?
          - Ser  que ele tira o capacete para dormir?

       16

         - Bom dia.
         - Bom dia.
         - Eu sou o pai da noiva. Da Maria Helena.
         - Maria Helena... Ah, a Gatona!
         - Essa.
         - Que prazer. AlguMa dvida sobre a cerim"nia?
         - No, Padre Osni. E que...
         - Pode me chamar de Tuco. E como me chamam
         - No, Padre Tuco.  que a Ga... A Maria Helena me
disse
       que ela pretende entrar danando na igreja. O conjunto
toca um
       rock e a noiva entra danando,  isso?
           . Um rock suave. No  rock pauleira.
           Ah, no  rock pauleira. Sei. Bom, isto muda tudo.
           Muitos jovens esto fazendo isto. A noiva entra
danan-
       do e na sada os dois saem danando. O senhor sabe, a
Igreja hoje
       est  diferente.  isto que est  atraindo os jovens de
volta ... Igreja.
       Temos que evoluir com os tempos.
         - Claro. Mas, radre Osni...
         - Tuco.
         - Padre Tuco, tem uma coisa. O pai da noiva tambm
tem
       que danar?
         - Bom, isto depende do senhor. O senhor dana?
         - Agora no, obrigado. Quer dizer, danava. At
ganhei
       um concurso de ch -ch -ch . Acho que voc ainda no era
nasci-
       do. Mas estou meio fora de forma e...
         - Ensaie, ensaie.
         - Certo.
         - Pea para a Gatona ensaiar com o senhor.
         - Claro.
         - No  rock pauleira.
         - Certo. Um roquezinho suave. Quem sabe um ch -ch -
       ch ? No. Esquece, esquece.

       a

           Voc est  nervoso, papai?
           Um pouco. E se a gente adiasse o casamento? Eu
preciso
       de uma semana a mais de ensaio. S6 uma semana.
       - Eu estou bonita?

       1?
       - Linda. Quando estiver pronta vai ficar uma beleza,
       - Mas eu estou pronta.
       - Voc vai se casar assim?
       - Voc no gosta?
       - Ediferente, n? Essa coroa de flores, os ps
descalos
       - No  um barato?
         - Um brinde, xar !
         - Um brinde, Varum.
         - Voc estava um estouro entrando naquela igreja.
Pareci-
       um bailarino profissional.

       nascido.

       - Pois . Improvisei uns passos. Acho que me sa bem.
       - Muito bem!
       - No sei se voc sabe que eu fui o rei do ch -ch -ch .
       - Do qu?
       - Ch -ch -ch . Uma dana que havia. Voc ainda no era

          - Bota tempo * nisso.
          - Eu tinha um Gordini envenenado. To envenenado que
       morreu. Um dia levei no
          - Tinha um qu?
          - Gordini. Voc sabe. Um carro. Varum, varum.
          - Ah.
          - Esquece.
          - Um brinde ao sogro bailarino.
          - Um brinde. Eu sei que vocs vo ser muito felizes.
          - O que  que voc achou da minha beca, cara?
          - Sensacional. Nunca tinha visto um noivo de macaco
       vermelho, antes. Gostei. Confesso que quando entrei na
igreja e
       vi voc l  no altar, de capacete
          - Vacilou.
          - Vacilei. Mas a vi que o Padre Tuco estava de bon
e pen-
       sei, tudo bem. Temos que evoluir com os tempos. E
ataquei meu
       rock suave.

       18

       Irmos

          - De vez em quando eu penso neles
          - Quem?
          - Nos espermatozides
          - De vez em quando voc pensa nos seus
espermatozides?
          - Nos meus, no. Nos do meu pai.
          - Voc est  bbado.
          - Na noite em que eu fui concebido - suponho que
tenha
       sido uma noite - eu era um entre milhes de
espermatozides.
       Mas s eu cheguei ao vulo de mame. Ou ser  bilhes?
          - Acho que  vulo mesmo.
          - No. Os espermatozides.  milhes ou bilhes?
          - AhnNo sei.
          - No importa. Milhes, bilhes. S eu me criei,
entende?
       Por acaso. Isto  o mais assombroso. A gratuidade da
coisa. Ha-
       via milhes, bilhes de espen-natozides junto comigo e
s eu, en-
       tende? S eu fecundei o vulo. No  assombroso?
            .
            Voc acha mesmo?
            Acho.

       19
         - Podia ser qualquer um, mas fui eu. Por acaso.
         - Amendoim?
         - Hein? Obrigado. Agora, me diga. Por que eu? A
gratui-
       dade da coisa. S eu fecundei o vulo, virei feto,
nasci, me criei e
       estou aqui, neste bar, de gravata, bebendo. Agora me
diga, o que
        isto?

            como voc diz. A gratuidade da coisa.
           No, no. Isto que eu estou bebendo.
           , ahn, usque.
           Usque. Pois ento. A est .
       O Moacyr, v outro aqui. O rapaz est  precisando.
       Um brinde!
       Um brinde.
       A eles!
       Quem?
       Aos espermatozides que no chegaram ao vulo de ma-
       me. Aos companheiros. Aos bravos que cumpriram sua
misso
       e no viveram para comemorar. Aos que perderam a
viagem.
       Aos meus irmos!
         - Aos meus irmos!
         - Meus irmos. Voc no estava l .
         - Aos seus irmos!
         - Aos milhes, bilhes que se sacrificaram para que
eu pu-
       desse viver.
         - Salve.
         - Agora me diga uma coisa.
         - Duas. Digo duas.
         - Cada espermatozide  uma pessoa diferente, certo?
       Quer dizer. Em outras palavras. Se outro espermatozide
tivesse
       completado a viagem, no seria eu aqui. Ou seria?
         - Depende.
         - No seria. Seria outra pessoa. Outro nariz, outras
idias.
       Talvez at torcesse pelo Amrica. Uma mulher! Podia ser
uma
       mulher. Certo?
         - No vamos exagerar...
         - Ento, imagina o seguinte- Pense bem. Amendoim.
         - Amendoim. Estou pensando nele. Amendoim.
         - No. Me passe o amendoim e pense no seguinte. Se
entre
       os esperrnatozides que me acompanharam, e que no
chegaram

       20

       ao vulo, estava o cara que ia descobrir a cura do
cncer? Hein?
       Hein?

         - Certo.
         - Mas, em vez dele, eu  que cheguei. Por acaso. Ou
podia
       ser uma mulher. Uma soprano de fama internacional. Em
vez dis-
       so, deu eu. Veja a minha responsabilidade.
         - Acho que voc est  sendo radical.
         - No. Imagine se em vez do espermatozide que se
trans-
       formou no Jnio Quadros, tivesse dado outro. A histria
do Bra-
       sil seria completamente diferente!  ou no ?
         - Mais ou menos.
         - Pois ento. Eu me sinto culpado, entende? Acho que
eu
       devia, sei l . Ter feito mais da minha vida. Em honra a
eles. Eu es-
       tou aqui representando milhes, bilhes de
espen-natozides, ca-
       da um uma pessoa em potencial. E o que  que eu fiz da
minha vi-
       da?

         - E se fosse um bandido?
         - Como?
         - Se, em vez de voc, o espermatozide que tivesse
dado
       certo fosse um assassino, um mau-car ter. No quero
falar dos
       espermatozides do seu pai, mas num grupo de milhes
sempre
       tem uma ovelha estragada. Uma ma negra.
Estatisticamente.
         - Voc acha mesmo?
         - Acho.
         - Sei l .
         - E outra coisa. O que passou, passou. No pense mais
nis-

       so.
         - Mas eu penso. De vez em quando eu penso. Os meus
ir-
       mos que no nasceram. Que nomes eles teriam? Eduardo,
Gil-
       son, Amaury, Jessica...
         - Marco Ant"nio ...
         - Marco Ant"nio ... Imagine, um deles podia ser o
ponta-
       direita que o Brasil precisava em 74. Eu me sinto
culpado. Voc
       no se sente culpado?
         - Bom, eu tenho 11 irmos.
         - A  diferente.
         - Por qu?
         - No sei. S sei que entre rrtilhes, bilhes de
espermato-
       zides, todos com os mesmos direitos, s eu me criei.
Por acaso.

       21
 Agora me diga, o que  isso?
         - E usque.
         - No. E a gratuidade da coisa.
         - No sei...
         - Voc est  bbado.

       22

       Outra do analista de Bag-

         Existem muitas histrias sobre o analista de Bag mas
no sei
       se todas so verdadeiras. Seus mtodos so certamente
pouco or-
       todoxos, embora ele mesmo se descreva como reudiano
barba-
       ridade". E parece que do certo, pois sua clientela
aumenta. Foi
       ele que desenvolveu a terapia do joelhao.
         Diz que quando recebe um paciente novo no seu
consultrio
       a primeira coisa que o analista de Bag faz  lhe dar
um joelhao.
       Em paciente homem, claro, pois em mulher, segundo ele,
"s se
       bate pra descarreg  energia". Depois do joelhao o
paciente  le-
       vado, dobrado ao meio, para o div coberto com um
pelego.
         - Te abanca, ndio velho, que t  includo no preo.
         - Ai - diz o paciente.
         - Toma um mate?
         - Na-no... - geme o paciente.
         - Respira fundo, tch. Enche o bucho que passa.
         O paciente respira fundo. O analista de Bag
pergunta:
         - A ora, qual  o causo?
           1 9
         - E depresso, doutor.

       23
         O analista de Bag tira uma palha de tr s da orelha e
comea
       a enrolar um cigarro.
           T" te ouvindo - diz.
            uma coisa existencial, entende?
           Continua, no m s.
           Comeo a pensar, assim, na finitude humana em
contras-
       te com o infinito csmico...
         - Mas tu  mais complicado que receita de creme Assis
Bra-

       sil.
         - E ento tenho conscincia do vazio da existncia,
da de-
       sesperana inerente ... condio humana. E isso me
angustia.
         - Pos vamos dar um jeito nisso agorita - diz o
analista de
       Bag, com uma baforada.
         - O senhor vai curar a minha angstia?
         - No, vou mudar o mundo. Cortar o mal pela mandioca.
         - Mudar o mundo?
         - Dou uns telefonemas a e mudo a condio humana.
         - Mas... Isso  impossvel!
         - Ainda bem que tu reconhece, animal!
         - Entendi. O senhor quer dizer que  bobagem se
angustiar
       com o inevit vel.
         - Bobagem  espirr  na farofa. Isso  burrice e da
gorda.
         - Mas acontece que eu me angustio. Me d  um aperto na
       garganta...
         - Escuta aqui, tch. Tu te alimenta bem?
         - Me alimento.
         - Tem casa com galpo?
         - Bem... Apartamento.
         - No  veado?
         - No.
         - T  com os carri em dia?
         - Estou.
         - Ento,  bagual. Te preocupa com a defesa do
Guarani e
       larga o infinito.

       alemo?
           No.
           Ento te fecha. E olha os ps no meu pelego.

       - O Freud no me diria isso.
       - O que o Freud diria tu no ia entender mesmo. Ou tu
sabe

       24

       tudo.

       - S sei que estou deprimido e isso  terrvel.  pior
do que

         A o analista de Bag chega a sua cadeira para perto
do div
       e pergun~ta:
         - E pior que joelhao?

       25
       Palavreado

         Gosto da palavra Iornida".  uma palavra que diz tudo
o
       que quer dizer. Se voc l que uma mulher  "bem
fornida", sabe
       exatamente como ela . No gorda mas cheia, rolia,
carnuda. E
       quente. Talvez seja a semelhana com "fomo". Talvez
seja ape-
       nas o tipo de mente que eu tenho.
         No posso ver a palavra "lascvia" sem pensar numa
mu-
       lher, no fornida mas magra e comprida. Lascvia,
imperatriz de
       Cntaro, filha de Pundonor. Imagino-a atraindo todos os
jovens
       do reino para a cama real, decapitando os incapazes
pelo fracasso
       e os capazes pela ousadia.
         Um dia chega a Cntaro um jovem trovador, Lipdio de
AI-
       bomoz. Ele cruza a Ponte de Safena e entra na cidade
montado
       no seu cavalo Escarcu. Avista uma mulher vestindo uma
banda-
       lheira preta que lhe lana um olhar cheio de betume e
cabriol.
       Segue-a atravs dos becos de Cntaro at um sum rio -
uma es-
       pcie de jardim enclausurado - onde ela deixa cair a
bandalhei-
       ra.  Lascvia. Ela sobe por um escrutnio, pequena
escada estrei-
       ta, e desaparece por uma porci ricula. Lipdio a segue.
V-se num
       longo conluio que leva a uma prtese entreaberta. Ele
entra. Las-
       cvia est  sentada num trunfo em frente ao seu
pinochet,

       26
       penteando-se. Lipdio, que sempre carrega consigo um
fanfarro
       (instrumento primitivo de sete cordas), comea a cantar
uma ba-
       lada. Lascvia bate palmas e chama:
         - Cisterna! Vanglria!
         So suas escravas que vm prepar -la para os ritos do
amor.
       Lipdio desfaz-se de suas roupas - o s tr'apa, o
lumpen, os dois
       f tuos - at ficar s de reles. Dirige-se para a cama
cantando
       uma antiga minarete. Lascvia diz:
         - Cala-te, sndalo. Quero sentir o seu vespcio junto
ao
       meu passe-partout.
         Atr s de uma cortina Muxoxo, o algoz, prepara seu
longo
       cadastro para cortar a cabea do trovador.
         A histria s no acaba- mal porque o cavalo de
Lipdio, Es-
       carcu, espia pela janela na hora em que Muxoxo vai
decapitar
       seu dono, no momento entregue ao sassafr s, e d  o
alarrne. Lip-
       dio pula da cama, veste seu reles rapidamente e sai
pela janela,
       onde Esc;3/4rcu o espera.
         Lascvia manda levantarem a Ponte de Safena, mas
tarde
       demais. Lipdio e Escarcu j  galopam por motins e
valiums, lon-
       ge da vingana de Lascvia.



         "Fal cia"  um animal multiforme que nunca est  onde
pare-
       ce estar. Um dia um viajante chamado Pseud"nimo (no 
o seu
       verdadeiro nome) chega ... casa de um criador de
fal cias, Otorri-
       no. Comenta que os negcios de Otorrino devem estar
indo mui-
       to bem, pois seus campos esto cheios de fal cias. Mas
Otorrino
       no parece muito contente. Lamenta-se:
         - As fal cias nunca esto onde parecem estar. Se elas
pare-
       cem estar no meu campo  porque esto em outro lugar.
         E chora:
         - Todos os dias, de manh, eu e rrnha mulher,
Bazfia,
       samos pelos camps a contar fal cias. E cada dia h
mais fal cias
       no meu campo. Quer dizer, cada dia eu acordo mais
pobre, pois
       so mais fal cias que eu no tenho.
         - Lhe fao uma proposta - disse Pseud"nimo - Compro
       todas as fal cias do seu campo e pago um pinote por
cada uma.
         - Um pinote por cada uma? - disse Otorrino, mal
conse-

       guindo disfarar o seu entusiasmo.
       mil fal cias.

       - Eu devo no ter umas cinco

         - Pois pago cinco mil Pinotes e levo todas as
fal cias que
       voc no tem.
         - Feito.
         Otorrino e Bazfia arrebanham as cinco mil fal cias
para
       Pseud"nimo. Este abre o seu comicho e comea a tirar
pinotes
       invisveis e coloc -los na palma da mo estendida de
Otorrino.
         - No estou entendendo - diz Otorrino. - Onde esto
os
       pinotes?
         - Os pinotes so como as fal cias - explica
Pseud"nimo.
       - Nunca esto onde parecem estar. Voc est  vendo algum
pino-
       te na sua mo?
         - Nenhum.
         -  sinal de que eles esto a. No deixe cair.
         E Pseud"nimo seguiu viagem com cinco nl fal cias,
que
       vendeu para um frigorfico ingls, o Filho and Sons.
Otorrino
       acordou no outro dia e olhou com satisfao para o seu
campo
       vazio. Abriu o besunto, uma espcie de cofre, e olhou
os pinotes
       que pareciam no estar ali. Estava rico!
         Na cozinha, Bazfia botava veneno no seu piro.



          "Lorota", para mim,  uma manicura gorda. 
explorada pe-
       lo namorado, Falcatrua. Vivem juntos num pitu, um
aparta-
       mento pequeno. Um dia batem na porta. E Martelo, o
inspetor
       italiano.
          - Dove est  il tuo megano?
          - Meu que?
          - Il fistulado del tuo matagoso umbr culo.
          - O Falcatrua? Est  trabalhando.
          - Sei. Com sua tragada de per"nios. Magarefe,
Barroco,
       Cantocho e Acepipe. Conheo bem o quintal. So uns
melin-
       dres de marca maior.
          - Que foi que o Falcatrua fez?
          - Est  vendendo fal cia inglesa enlatada.
          - E da?
          - Da que dentro da lata no tem nada. Parco manolo!

       28
       Defenestrao

         Certas palavras tm o significado errado. Fal cia,
por exem-
       plo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal
' As pe,,
       soas deveriam criar fal cias em todas as suas
variedades. A Fal -
       cia Amaz"nica. A misteriosa Fal cia Negra.
         Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de
andari-
       lhos hermticos. Onde eles chegassem, tudo se
complicaria.
         - Os hermeneutas esto chegando,
         - Ih, agora  que ningum vai entender mais nada...
         Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam
todas as
       atividades produtivas com seus enigmas e frases
ambguas. Ao se
       retirarem deixariam a populao prostrada pela
confuso. Leva-
       ria semanas at que as coisas recuperassem o seu
sentido bvio.
       Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
         - Alo...
         - O que  que voc quer dizer com isso?
         Traquinagem devia ser uma pea mecnica.
         - Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor est
gasto.
         Plmbeo devia ser o barulho que um corpo faz ao cair
na
        gua.

       29
         Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto
alefenes-
       trao.
         A princpio foi o fascnio da ignorncia. Eu no
sabia o seu
       significado, nunca me lembrava de procurar no
dicion rio e ima-
       ginava coisas. Defenestrar devia ser um ato extico
praticado por
       poucas pessoas. Tinha at um certo tom lbrico.
Galanteadores
       de calada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
         - Defenestras?
         A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah,
algu-
       mas defenestravam.
         Tambm podia ser algo contra pragas e insetos. As
pessoas
       talvez mandassem defenestrara casa. Ha,,eria, assim,
defenestra~
       dores profissionais.
         Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras
que
       encerravam os documentos  -riais? "Nestes terrmos, pede
defe-
       nestrao..." Era uma palavra cheia de implicaes.
Devo at t-
       Ia usado uma ou outra vez, como em:
         - Aquele  um defenestrado.
         Dando a entender que era uma pessoa, assim, como
dizer?
       Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata.
         Um dia, finalmente, procurei no dicion rio. E a est
o Aure-
       lio que no me deixa mentir. -Defenestrao" vem do
francs
       -defenestration". Substantivo feminino. Ato de atirar
algum ou
       algo pela janela.
         Ato de atirar algum ou algo pela janela!
         Acabou a minha ignorncia mas no a minha fascinao.
       Um ato como este s tem nome prprio e lugar nos
dicion rios
       por alguma razo muito forte. Afinal, no existe, que
eu saiba,
       nenhuma palavra para o ato de atirar algum ou algo
pela porta,
       ou escada abaixo. Por que, ento, defenestrao?
         Talvez fosse um h bito francs que caiu em desuso.
Como o
       rap. Um vcio como o tabagismo ou as drogas, suprimido
a tem-
       po.

         - Ls defenestrations. Devem _er proibidas.
         - Sim, monsieur l Ministre.
         - So um escndalo nacional. Ainda mais agora, com os
       novos prdios.
         - Sim, monsieur l Ministre.
         - Com prdios de trs, quatro andares, ainda era
admiss-
       vel. At divertido. Mas da para cima vira crime, Todas
as janelas

       30

       do quarto andar para cima devem ter um
cartaz:---Interdit de de~
       fenestrer". Os transgressores sero multados. Os
reincidentes se-
       rao presos.
         Na Bastilha, o Marqus de Sade deve ter convivido com
no-
       trios defenestreurs, E a compulso, mesmo suprimida,
talvez
       ainda persista no homem, como persiste na sua
linguagem, O
       mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
         - E esta estranha vontade de atirar algum ou algo
pela ja-
       nela, doutor...
         - Hmm. O impulsus de ' fenestrex de que nos fala
Freud. Al-
       go a ver com a me. Nada com o que se preocupar - diz o
analis~
       ta, afastando-se da janela.
         Quem entre ns nunca sentiu a compulso de atirar
algum
       ou algo pela janela? A basculante foi inventada para
desencorajar
       a defenestrao. Toda a arquitetura moderna, com suas
paredes
       externas de vidro reforado e sem aberturas, pode ser
uma reao
       inconsciente a esta volpia humana, nunca totalmente
domina-
       da.

         Na lua-de-mel, numa sute matrimonial no 17` andar.
         - Querida...
         - ?
         - H  uma coisa que eu preciso lhe dizer...
         - Fala, amor.
         - Sou um defenestrador.
         E a noiva, na sua inocncia, caminha para a cama:
       - Estou pronta para experimentar tudo com voc. Tudo
       Uma multido cerca o homem que acaba de cair na
calada.
       Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:
         - Fui defenestrado...
         Algum comenta:
         - Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela
         Agora mesmo me deu urna estranha compulso de
arrancar
       o papel da m quina, amass -lo e defenestrar esta
cronica, Se ela
       ,a  porque resisti.

       Angfica

       Ela  moa, branca, jeito simples.
            aqui que esto precisando de uma empregada?
           E sim. Mas voc..
           Quero o emprego, sim, senhora.
         Marina fica desconfiada.
         - Voc  cozinheira?
         - De fomo e fogo. O trivial e o requintado.
Salgados, do-
       ces, especialidades.  s pedir.
         - Bom, mas...
         - Tambm limpo a casa, passo roupa, fao compras. 
s
       pedir.
         - Dorme no emprego?
         - Se a senhora quiser.
         Marina hesita. A moa abre a bolsa simples e tira uns
papis.
       Oferece para Marina.
         - Minhas referncias.
         - Ora, no precisa - diz Marina, pegando as
referncias e
       examinando-as atentamente. So timas.
         - So timas.

       32

            Sim, senhora.
            Quando  que voc quer comear?
            No  melhor acertar o sal rio, primeiro?
             verdade - diz Marina, desanimando. Pensando: n
       certa vai pedir uma fortuna.
            Quanto  que voc quer ganhar?
            Duzentos cruzeiros.
            Por dia?!
            Por ms.
            Por ms?! Mas  muito pouco.
            Se a senhora no aceitar
            Aceito. Aceito! Como  o seu nome?
            Anglica - responde a moa, angelicamente.

       a

       porta.

       Quando Manoel chega em casa, d  com Anglica ao lado da

         - O seu casaco?
         Ela ajuda Manoel a tirar o casaco. Manoel se deixa
ajudar,
       apalermado.
         - O senhor costuma tomar alguma coisa antes do
jantar?
       Um usque?
         - Um usque est  perfeito.
         - Quer tirar os sapatos e trocar por chinelos?
         - Ahn... Quero.
         - E o seu cachimbo. Agora ou depois do jantar?
         Manoel est  de boca aberta, Leva alguns minutos para
se re-
       cuperar e responder:
         - Depois, depois.
         - Vai tomar banho agora ou antes de dorrnir?
         Manoel faz um gesto instintivo, como que para
proteger sua

       nudez.

       - Por qu?
       - Conforrne for, eu j  preparo o seu banho.
       - Tomo banho antes de dormir, obrigado. Escute. Voc

       - Sua nova empregada. Anglica.
       33
          - Ela caiu do cu! - sussurra Marina, na mesa do
jantar.
          - Que jantar. Que jantar! - exclama Manoel,
entusiasma-
       do.  Quanto  que ns estamos pagando por esse anjo?
            Voc no vai acreditar. Duzentos.
            Por dia?!
            Por ms!
          A.riglica entra da cozinha, trazendo a sobremesa.
          - Mmmm - faz Manoel, olhando a sobremesa.
          - Mmmmmmmm - faz Marina.

       o

       - J  sei - diz Marina, mais tarde, na sala. Ela 
ladra.
       - Com essa cara? No pode ser.
       - A verdade  que as referncias so timas.
       - Do jeito que ela cozinha, pode roubar-nos ... vontade.
S
       sai daqui por cima do meu cad ver. E vai ser um cad ver
gordo.
       Manoel apalpa a prpria barriga com satisfao.

       o

         Os dois vo dar uma espiada no quarto de Anglica.
Encon-
       tram a moa cerzindo meia.

       sair.

       Olha,se voc quizer sair, dar umas voltas, tudo bem.
       No senhora, Prefiro ficar em casa. No sou muito de

           Se quiser ver televiso conosco...
           No, senhor. No gosto de televiso. Obrigada.
         - O que  que voc gosta de fazer? Como passatempo?
         - Bom, gosto de jogar damas...
         Marina e Manoel se entreolham, enternecidos. Damas.
Ela 
       mesmo um anjo.

       a

         - Manoel e Anglica jogam damas enquanto Marina olha
       televiso. Anglica se oferece para trazer caf, ch ,
quem sabe uns
       bolinhos, mas os dois no aceitam.
         - Descanse' menina - diz Manoel. - Voc agora faz
parte
       da famlia.  a sua vez de jogar.

       34

       - O senhor no gosta de jogar a dinheiro, Seu Manoel?
       - Damas a dinheiro? Nunca joguei.
       - Fica muito mais divertido.
       - E como  que se joga damas a dinheiro?
       - Mil por partida, mais 500 por diferena de pedra,
dinhei-
       ro na mesa, empate dobra a parada.

       o

         Um ms depois. Marina e Manoel sussurram na mesa.
Aca-
       baram de comer outro jantar maravilhoso, mas no esto
mara-
       vilhados.Marina pergunta:
         - Quanto  que voc j  deve a ela?
         - Dezesseis mil. Nunca vi ningum jogar damas como
ela.
       No perde nunca!
         - Dezesseis mil?!
         - Shhhh...
         Anglica entra da cozinha com uma sobremesa monumen-
       tal. Mesmo contra a vontade, Manoel no pode deixar de
salivar.
         - No esquea o nosso joguinho de hoje ... noite, Seu
Ma-
       noel - diz Anglica, alegremente.
         - No esqueo no - diz Manoel. E, quando Anglica
vol-
       ta para a cozinha: - Hoje eu ganho. Hoje eu recupero
tudo. Ela
       vai ver.
         Mas Anglica ganha outra vez. E no aceita cheque.

       35


       Outra do analista de Bag

         Contam que Lindaura, a recepcionista do analista de
Bag
       (segundo ele,---maiseficiente que purgante de man  e
japons na
       roa"), desenvolveu um mtodo para separar os casos
graves dos
       que so s - como diz o analista de Bag - Ioucos de
faceiros  .
       Enquanto preenche a ficha, ela d  a cada paciente em
potencial
       uma cuia de chimarro no formato de um seio. Depois vai
ano-
       tando: -Quis chupar a cuia em vez da bomba", "Comeou a
ge-
       mer e acariciar a cuia", 'Atirou contra a parede", etc.
Assim,
       quando recebe o paciente, o analista de Bag j  sabe o
que espe-
       rar. Mas nada preparou o analista de Bag para a
entrada no seu
       consultrio do megal"mano de Carazinho. O di logo entre
os
       dois j  comeou mal.
         - Te deita no div.
         - No deito.
         - Te deita, bagual!
         - No deito!
         - E por que no deita?
         - Em primeiro lugar porque s quem mandava em mim era

       36

       o meu pai, queja est  no Grande Galpo do cu capando
anjo pra
       fazer lingia. Em segundo lugar que o analista aqui
sou eu.
         E com isto o analista de Bag derrubou o outro com um
pei-
       tao e o segurou sobre o pelego do div com um joelho
no omo-
       plata. Gritou:
         - Diz qual  teu problema!
         - No digo pra qualquer um!
         - Diz seno te arranco esses bigodes dois a dois.
         - Todos dizem que eu tenho mania de ser melhor do que
os
       outros, mas eu no acredito neles.
         - E por que no?
         - Porque  tudo gente inferior.
         O analista de Bag saiu de cima do outro, mas deixou
o fa-
       co bem a vista, para evitar incomodao. O outro
continuou.
         - Eu tenho megalomania.
         - No tem - disse o analista de Bag, brabo. Sabia
que era
       verdade, mas no agentava fanfarro.
         - Quer saber mais do que eu?
         - Sei mais do que tu, teu irmo, tua me e teu pai,
se fosse
       conhecido.

       e disse:

         Nisso o megal"mano de Carazinho subiu em cima do
div,
       apontou um dedo para o analista de Bag e ameaou:
       - Olha que eu te transformo em pedra.
       O analista de Bag abriu a camisa e ofereceu o peito:
       - Pois transforma. Quero ver. Transforma!
       O outro mudou de t tica. Ergueu a mo como numa bno

        Eu te perd"o.
       A o analista de Bag avanou.

       o

         Na sala de espera Lindaura esperou meia hora antes de
en-
       trar no consultrio. Tinha ordens do analista de Bag
sobre como
       agir de acordo com os sons que ouvia. "Resf"lego, no
liga. Ge-
       mido, vai pra casa. Grito, te prepara. Moblia
quebrada, entra.-
       Decidiu entrar. Encontrou o megal"mano de Carazinho
incons-
       ciente embaixo do div virado, com s metade do bigode.
Depois
       o analista de Bag explicou:

         - Doena  uma coisa. Convencimento  outra.
         O outro era -metido a gran cosa". Mas ele perdera
mesmo a
       paciencia quando ouvira o outro dizer:
       - Sou o maior megal"mano do mundo!
       Aparecia cada um.

       38

       O Nariz

         Era um dentista, respeitadssimo. Com seus quarenta e
pou-
       cos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem srio,
s-
       brio, sem opinies surpreendentes mas uma slida
reputao co-
       mo profissional e cidado. Um dia, apareceu em casa com
um na-
       riz postio. Passado o susto, a mulher e a filha
sorriram com fingi-
       da tolerncia. Era um daqueles narizes ...e borracha com
culos de
       aros pretos, sobrancelhas e bigodes que fazem a pessoa
ficar pare-
       cida com o Groucho Marx. Mas o nosso dentista no
estava imi-
       tancio o Groucho Marx. Sentou-se ... mesa do almoo -
sempre
       almoava em casa - com a retido costumeira, quieto e
algo dis-
       trado. Mas com um nariz postio.
         - O que  isso? - perguntou a mulher depois da
salada,
       sorrindo menos.
         - Isto o qu?
       - Esse nariz.
           Ah. Vi numa vitrina, entrei e comprei.
           Logo voc, papai...
         Depois do almoo, ele foi recostar-se no sof  da
sala, como
       fazia todos os dias. A mulher impacientou-se.

       39
       - Tire esse negcio.
       - Por qu?
       - Brincadeira tem hora.
       - Mas isto no  brincadeira.
       Sesteou com o nariz de borracha para o alto. Depois de
meia
       hora, levantou-se e dirigiu-se para a porta. A mulher o
interpe-
       lou.

       rio.

       - Aonde  que voc vai?
       - Como, aonde  que eu vou? Vou voltar para o consulto~

         - Mas com esse nariz?
         - Eu no compreendo voc disse ele, olhando-a com
       censura atravs dos aros sem lentes. Se fosse uma
gravata no-
       va voc no diria nada. S porque  um nariz...
         - Pense nos vizinhos. Pense nos clientes.
         Os clientes, realmente, no compreenderam o nariz de
bor-
       racha. Deram risadas Iogo o senhor, doutor..."),
fizeram per-
       guntas, mas terrninaram a consulta intrigados e saram
do consul-
       trio com dvidas.
         - Ele enlouqueceu?
         - No sei - respondia a recepcionista, que trabalhava
com
       ele h  15 anos. - Nunca vi ele assim.
         Naquela noite ele tomou seu chuveiro, como fazia
sempre   pai!
       antes de dormir. Depois vestiu o pijama e o nariz
postio e foi se
       deitar.
         - Voc vai usar esse nariz na cama? - perguntou a
mulher.
         - Vou. Ali s, no vou mais tirar este nariz.
         - Mas, por qu?
         - Por que no?
         Dormiu logo. A mulher passou a metade da noite
olhando
       para o nariz de borracha. De madrugada comeou a chorar
baixi-
       nho. Ele enlouquecera. Era isto. Tudo estava acabado.
Uma car-
       reira brilhante, uma reputao, um nome, uma famlia
perfeita,
       tudo trocado por um nariz postio.

       o

       - Papai...
       - Sim, minha filha.

       40

         - Podemos conversar?
         - Claro que podemos.
            sobre esse seu nariz...
           O meu nariz, outra vez? Mas vocs s pensam nisso?
           Papai, como  que ns no vamos pensar? De uma hora
       para outra um homem como voc resolve andar de nariz
postio
       e no quer que ningum note?
         - O nariz  meu e vou continuar a usar.
         - Mas, por que, papai? Voc no se d  conta de que se
       transf on-riou no palhao do prdio? Eu no posso mais
encarar os
       vizinhos, de vergonha. A mame no tem mais vida
social.
         - No tem porque no quer...
         - Como  que ela vai sair na rua com um homem de
nariz
       postio?
         - Mas no sou---umhomem-. Sou eu. O marido dela, O
seu
       pai. Continuo o mesmo homem. Um nariz de borracha no
faz
       nenhuma diferena.
         - Se no faz nenhuma diferena, ento por que usar?
         - Se no faz diferena, por que no usar?
         - Mas, mas...
         - Minha filha...
         - Chega! No quero mais conversar

       o

       Voc no  mais meu

         A mulher e a filha saram de casa. Ele perdeu todos
os clien-
       tes. A recepcionista, que trabalhava com ele h  15
anos, pediu de-
       misso. No sabia o que esperar de um homem que usava
nariz
       postio. Evitava aproximar-se dele. Mandou o pedido de
demis-
       so pelo correio. Os amigos mais chegados, numa ltima
tentati~
       v de salvar sua reputao, o convenceram a consultar
um psi-
       quiatra.
         - Voc vai concordar - disse o psiquiatra, depois de
con-
       cluir que no havia nada de errado com ele - que seu
comporta-
       mento  um pouco estranho...
         - Estranho  o comportamento dos outros! - disse ele.
-
       Eu continuo o mesmo. Noventa e dois por cento do meu
corpo
       continua o que era antes. No mudei a maneira de
vestir, nem de

       1

       41
       pensar, nem de me comportar. Continuo sendo um timo
dentis-
       ta, um bom marido, bom pai, contribuinte, scio do
Fluminense,
       tudo como antes. Mas as pessoas repudiam todo o resto
por cau-
       sa deste nariz. Um simples nariz de borracha. Quer
dizer que eu
       no sou eu, eu sou o meu nariz?
         - ... - disse o psiquiatra. - Talvez voc tenha
razo...
         O que  que voc acha, leitor? Ele tem razo? Seja
como for,
       no se entregou. Continua a usar nariz postio. Porque
agora no
        mais uma questo de nariz. Agora  uma questo de
princpios.

       42

       Mais palavreado

         Contam que Pantufo, Rei da Ciznia, Imperador das
Angu-
       lares (a Pequena e a Grande), do Alto e do Baixo Fender
e de to-
       das as Rixas, tinha uma coleo de aves que piavam. Era
a maior
       coleo de aves que piavam do mundo conhecido. E
provavel-
       mente do desconhecido tambm, se bem que deste se sabia
pou-
       co.

         Um dia chegaram a Nova Velha, capital da Ciznia (a
Velha
       Velha f ora destruda por um paroxismo), dois
viajantes, Metatar-
       so de Castro e Palpos de Aranha. Os dois se dirigiram
ao pal cio
       real e pediram uma audincia com o rei.
         - De que se trata? - quis saber o custdio real.
         - Sabemos que Sua Excrescncia tem a maior coleo de
       aves que piam do mundo - disse Metatarso.
         -  verdade - disse o custdio, olhando os
forasteiros de
       balaio. - Todas as aves que piam no mundo esto na
coleo do
       nosso rei.
         - Todas no - plicou Palpos.
         - Como no? - replicou o custdio.
         - Sabemos de aves raras que piam como nenhuma outra
       que no esto na coleo de Sua Indecncia.

       43
         - E onde esto essas aves? - triplicou o custdio.
         - S diremos para Sua Demncia em pessoa.
         Os dois foram levados ... presena de Pantuf o, que
reclinava
       sobre um almoxarife, abanado por dezessete lupanares
enquanto
       uma lndea seminua coava o seu estr"ncio. A sala do
trono era
       toda decorada de alvssaras e rocamboles silvestres.
         - Sim? - disse o Rei da Ciznia, mastigando uma
vspera
       e cuspindo os cedilhas na mo de um liminar.
         - Trazemos notcias de aves que piam como nenhuma ou-
       tra - disse Metatarso, fazendo um salaminho.
         - Aves de que Vossa Murnificincia jamais ouviu falar
-
       completou Palpos, com um arrabal. at o cho.
         - Impossvel - disse o rei, com suco de vspera
correndo
       pela pauta e o jargo real. - Eu tenho todas as aves
que piam do
       mundo.
         - Vossa Ardncia conhece a xerox emplumada?
         - Xerox emplumada?
            uma ave que ns descobrimos.
           E ela pia? - trucou o rei.
           Copia - retrucou Metatarso.
           Como  que eu no conheo essa ave? - disse o rei,
       olhando com sdio para Teflon, o caador real. - Onde
vocs a
       encontraram?
         - Num lugar que s ns conhecemos, Vossa Carncia. Na
       margem oposta de um dos sete mares do vosso reino.
         - Qual dos mares? O Mita, o More, o Racas, o Selhesa,
o
       Fim ou o Condes Ferraz?
         - Um desses - disse Palpos.
         - Mmmm. J  vi tudo - disse Pantuf o, coando as
bigor-
       nas. - Vocs querem alguma coisa em troca da
informao. O
       qu? Digam que ser  seu.
         - Bem, Vossa Displicncia - disse Palpos -, somos
via-
       jantes solit rios. Muita falta nos faz a companhia
feminina, prin-
       cipalmente em noites de torresmo e barracas...
         - Ah, quereis catimbas - disse o rei. - Pois escolham
as
       que quiserem do meu catimbeiro.
         - Preferimos escolher entre as suas filhas, Vossa
Insuficin-

       cia.

         O rei esbravejou chamando os viajantes de tudo, desde
arre-
       bis at filhos de uma turbina, mas acabou concordando.
Man-

       44

       dou chamar as filhas para que os viajantes escolhessem.
Metatar-
       so ficou com Ampola e Palpos com Lentilha, as mais
encarnadas
       de todas.
         - Agora digam onde esto essas aves que piam como ne-
       nhuma outra.
         - Bem - disse Metatarso -, vossas filhas tem h bitos
ca-
       ros, Vossa Decadncia. Como conseguiremos mant-las
felizes,
       comprar picuinhas, aleivosias...
         - Est  bem - interrompeu o rei. - Vocs tero uma
renda
       vitalcia de um milho de dolos por ms. Terei de
aumentar os im-
       postos, mas o povo compreender . Agora, vamos ...s aves!
         No dia seguinte, partiu a armada real, dez bulhufas
esca-
       nhoadas e uma bulhufa-capitnia, entre gritos dos seus
coman-
       ches:
         - Arrebitar o vetusto!
         - Suspender o bilboqu de aafro e o lume da
alcatra!
         - Pinicar a esp tula e dobrar o macambzio!
         Durante a viagem, Pantuf o no parava de pedir mais
infor-
       maes sobre as aves que encontrariam.
         - H  a "voiyeur de nuit" - disse Metatarso.
         - E ela pia? - torquiu o rei.
         - Espia - retorquiu Metatarso.
         - H  a piorra azul - disse Palpos.
         - E ela pia?
         - Rodopia.
         - E a clnica do banhado.
         - Ela pia?
         - Terapia.
         - No podemos esquecer o marreco lar pio.
         - Ele pia?
         - Surrupia.
          - E as ccegas selvagens...
         - Elas piam?
         - Arrepiam.
         A armada real levou dois anos para atravessar seis
mares,
       com Metatarso e Palpos recebendo seu milho de dolos
por ms e
       entregando-se, todas as noites, a longas lengas e
intermin veis
       charnecas com Ampola e Lentilha. Finalmente chegaram ...
mar-
       gem oposta do Mar Condes Ferraz e desceram ... terra. Mas
no
       encontraram aves que piavam como nenhuma outra.

       45
         - Onde esto as aves? - qis saber Pantuf o.
         - j  sei o que houve, Vossa Dissidncia - disse
Palpos. -
       Esta no  a margem oposta.
         - Claro - disse Metatarso. - A margem oposta fica do
       outro lado.
         - E l  se foi, de novo, a armada real.
         - Arrematar as polpas de antanho!
         - Acinturar a sirigaita maior!
         Contam que a armada real est  navegando at hoje,
pois a
       margem oposta sempre muda, misteriosamente, de lado.
Apesar
       dos gritos do Rei Pantufo:
         - Bando de conbios!
         - Caramanches de uma pipa!
         - Arras cuneiformes!
         E a todas estas o povo pagando impostos.

       46

       Hist Iorias de bichos

         Dona Casemira vivia sozinha com seu cachorrinho. Era
um
       cachorrinho preto e branco que Dona Caseri-tira
encontrara na
       rua um dia e levara para casa, para acompanh -la na sua
velhice.
       Pobre da Dona Casen-ra.
         Dona Casernira acordava de manh e chamava:
         - Dudu!
         O cachorrinho, que dormia na  rea de servio do
aparta-
       mento, levantava a cabea.
         - Vem, Dudu!
         O cachorrinho no ia. Dona Casemira preparava a
corrtida
       do cachorrinho e levava at ele.
         - Est  com fome, Dudu?
         Dona Casemira botava o prato de comida na frente do
ca-
       chorrinho.
         - Come tudo, viu, Dudu?
         Dona Casern ra passava o dia inteiro falando com
Dudu.
         - Que dia feio, heiri, Dudu?
         - Vamos ver nossa novela, Dudu?
         - Vamos dar uma volta, Dudu?

       47

         Saam na rua. Dona Casemira sempre falando com seu
ca~
       chorrinho.
         - Est  cansado, Dudu?
         - j  f -Z seu xixizinho, Dudu?
         - Vamos voltar pra casa, Dudu?
         Dona Casernira e seu cachorrinho viveram juntos
durante
       sete, oito anos. At que Dona Casenra morreu. E no
velrio de
       Dona Casernira, l  estava o cachorrinho sentado num
canto,
       com o olhar parado. A certa altura do velrio o
cachorrinho sus-
       pirou e disse:
         - Pobre da Dona Casemira...
         Os parentes e os amigos se entreolharam. Quem dissera
       aquo? No havia dvida. Tinha sido o cachorro.
         _ O que... o que foi que voc disse? - perguntou um
neto
       mais decidido, enquanto os outros recuavam, espantados.
         - Pobre da Dona Casemira - repetiu o cachorro. - De
       certa maneira, me sinto um pouco culpado...
         - Culpado por qu?
         - Por nunca ter respondido ...s perguntas dela. Ela
passava
       o dia me fazendo perguntas. Era Dudu. pra c  e Dudu pra
l ... E
       eu nunca respondi. Agora  tarde.
         A sensao foi enorme. Um cachorro falando! Chamem a
       TV! - E por que - perguntou o neto mais decidido - voc
       nunca res ondeu?
         -E que eu sempre interpretei como sendo perguntas
retri-
       cas...

       a

         E tem a histria do papagaio depressivo-
         Compraram o papagaio com a garantia que era um papa-
       gaio falador. No calava a boca. Ia ser divertido. No
h  nada
       mais engraado do que um papagaio, certo? Aquela voz
safada,
       aquele ar gozador. Mas este papagaio era diferente.
         No momento em que chegou na casa, o papagaio foi
rodea-
       do pelas crianas. Dali a pouco um dos garotos foi
perguntar ao
       pai:
         - Pai, quem  Kierkegaard?
         - O qu?

       48

         O papagaio estava citando K erkegaard para as
crianas.
       Algo sobre a insignificncia do Ser diante do Nada. E
fazendo a
       ressalva que, ao contr rio de K erkegaard, ele no
encontrava a
       resposta numa racionalizao da cosmogonia crist. O
pai man-
       dou as crianas se afastarem e encarou o papagaio.
         - D  a patinha, Louro.
         - Por qu? - disse o papagaio.
         - Como, por qu? Porque sim.
         - Essa resposta  inaceit vel. A no ser como
corol rio de
       um posicionamento mais amplo sobre a gratuidade do
gesto en-
       quanto...
         - Chega!
         - Certo. Chega. Eu tambm sinto um certo enfaro com a
       minha prpria compulso analtica. O que foi que disse
o bardo?
       "O mundo est  demais conosco." Mas o que fazer? Estamos
con-
       denados ... autoconscincia. Existir  questionar, como
disse...
         O pai tentou devolver o papagaio mas no o aceitaram
de
       volta. A garantia era de que o papagaio falava. No
garantiram
       que seria engraado. E o papagaio, realmente, no
parava de fa-
       lar. Um dia o pai chegou em casa e foi recebido com a
notcia de
       que a cozinheira tentara se suicidar. Mas como? A
Rosaura, sem-
       pre to bem disposta?
         - Foi o papagaio.
         - O papagaio?
         - Ele encheu a cabea dela. A futilidade da
existncia, a in-
       diferena do Universo, sei l .
         Aquilo no podia continuar assim. Os amigos iam
visitar,
       esperando se divertir com a conversa do papagaio
depressivo. No
       princpio riam muito, sacudiam a cabea e comentavam:
"Veja
       s, um papagaio filsofo..." Mas em pouco tempo ficavam
s-
       rios. Saiam contemplativos. E deprimidos.
         - Sabe que algumas coisas que ele diz...
         - Eu nunca tinha pensado naquela questo que ele
colocou,
       da transitoriedade da matria...
         Os vizinhos reclamavam. O negativismo do papagaio
       enchia o poo do edifcio e entrava pelas cozinhas.
Como se no
       tivessem bastante preocupaes com o preo do feijo,
ainda ti-
       nham que pensar na finitude humana? O papagaio
precisava ser
       silenciado.

       49
                                    usou apenas
       um papagaio, e estou preso neste Poleiro. Mas voc j
pensou
       bem no que vai fazer?
         - E a nica soluo. A no ser que voc prometa nunca
       mais abrir a boca,

         Foi numa madrugada. O pai entrou na cozinha. Acendeu
a
       luz, interrompendo uma dissertao crtica sobre Camus
que o
       papagaio - que era sartreano - fazia no escuro. Pegou
um fa-
       co.

       - Hmmm. - disse o papagaio. - Ento vai ser assim.
       - Vai.
       - Est  certo. Voc tem o poder E o faco E

         - Isso eu no posso fazer. Sou um Papagaio falador.
Biolo-
       gia  destino.
         - Ento...

       res.

         - Espere. Pense na imoralidade do seu gesto.
         - Mas voc mesmo diz que a moral  relativa. Em
termos
       absolutos, num mui ido absurdo nenhum gesto  mais ou
menos
       moral do que outro. .
         - Sim, mas estamos falando da sua moral burguesa.
Mes-
       mo ilusria, ela existe enquanto determina o seu
sistema de valo-

         - Sim, mas...
         - Espere-- Deixe eu terminar. Sente a e vamos
discutir esta
       questo. Wittgenstein dizia que...

       50

       1

       Sfot POC

         Chamava-se Odacir e desde pequeno, desde que comeara
a
       falar, demonstrara uma estranha peculiaridade. Odacir
falava
       como se escreve. Sua primeira palavra no foi apenas
"Gugu".
       Foi:

         - Gu, hfen, gu...
         Os pais se entreolharam, at"nitos. O menino era um
fen"-
       meno. O pediatra no p"de explicar o que era aquilo,
Apenas le-
       vantou uma dvida.
         - No tenho certeza que "gugu" se escreve com hfen.
Acho
       que  uma palavra s, como todas as expresses desse
tipo. "Da-
       d ", etc.
         - Da, hfen, d  - disse o beb, como que para
liquidar
       com todas as dvidas.
         Um dia, a me veio correndo. Ouvira, do bero, o
Odacir
       chamando:
         - Mama sfot poc.
         E, quando ela chegou perto:
         - Mama sfotoim poc.
         S depois de muito tempo os pais se deram conta.
"Sfot poc"
       era ponto de exclamao e "sfotoim poC, ponto de
interrogao.

       51


         Na escola, tentaram corrigir o menino.
         - Odacir!
         - Presente sfot poc.
         - V  para a sala da diretora!
         - Mas o que foi que eu fiz sfotoim poc.
         Com o tempo e as leituras, Odacir foi enriquecendo
seu re-
       per~rio de sons. Quando citava um trecho liter rio,
comeava e
       tem inava a citao com "spt, spt". Eram as aspas.
Ali s, no di-
       zia nada sem antes prefaciar com um "zit". Era o
travesso. Foi
       para a sua primeira namorada que ele disse certa vez,
maravilha-
       do com a prpria descoberta:
         _ Zit Marilda plic (vrgula) voc j  se deu conta que
a gente
       sempre fala di logo sfotoim poc.
         - O qu?
         - Zit ns sfot poc. Tudo que a gente diz  di logo
sfot poc.
         - Olhe, Odacir. Voc tem que parar de falar desse
jeito. Eu
       gosto de voc, mas o pessoal fala que voc  meio
biruta.
         - Zit spt spt biruta spt spt sfotoim poc.
         - Viu s? Voc no p ra de fazer esses rudos. E
ainda por
       cima, quando diz "sfotoim", cospe no meu olho.
         O namoro acabou. Oclacir aceitou o fato
filosoficamente,
       aproveitando para citar o poeta.
           Zit spt spt. Que seja eterno enquanto dure poc poc
poc:

       spt spt.
         Poc, poc, poc eram as reticncias.
         Oclacir era fascinado por palavras. Tornou-se o
orador da
       sua turma e at hoje o seu discurso de formatura (em
Letras) 
       lembrado na faculdade. Como os colegas conheciam os
h bitos
       do Odacir mas os pais e os convidados no, cada novo
som do
       Odacir era interpretado, aos cochichos, na platia:
         - Zit meus senhores e minhas senhoras poc: poc.
         - Poc, poc?
         - Dois pontos.
         - Que rapaz estranho...
         - A senhora ainda no viu nada...
         Quando lia um texto mais extenso, Odacir acompanhava
a
       leitura com o corpo. As pessoas viam, literalmente, o
Odacir mu-
       dar de par grafo.
         - Mas ele parece que est  diminuindo de tamanho!

       52

       - No, no.  que a cada novo par grafo ele se abaixa
um

       pouco.
         Quando chegava ao fim de uma folha, Oclacir estava
quase
       no cho. Levantava-se para comear a ler a folha
seguinte.
         - Colegas sf ot poc Mestres sf ot poc: Pais sf ot
poc. No limiar
       de uma era de grandes transformaes sociais plic o que
ns plic
       formandos em Letras plic podemos oferecer ao mundo
sfotoim
       poc.

         A grande realizao de Odacir foi o trema. Para
interpretar
       o trema, Odacir no queria usar poc, poc, que podia ser
confun-
       dido com dois pontos. Poc plic era ponto e vrgula. Um
spt s era
       apstrofe. Como seria trema? Odacir inventou um estalo
de ln-
       gua, algo como tlc, tlc. Difcil de fazer e at
perigoso. Ainda bem
       que tinha poucas oportunidades de usar o trema.

       o

         Odacir, apesar de formado em Letras, acabou indo
traba-
       lhar no escritrio de contabilidade do pai. Levava uma
vida nor-
       mal. Lia muito e sua conversa era entrecortada de spts,
spts, cita-
       es dos seus autores favoritos. Mesmo assim casou - na
ceri-
       m"nia, quando Odacir disse "Aceito sfot poc", o padre
foi visto
       discretamente enxugando um olho - e teve um filho. E
qual no
       foi o seu horror ao ouvir o primeiro som produzido pelo
recm-
       nascido:
         - ,,vwwwuauwwwliau!
         - Zit o que  isso sfotoim e sfot poc.
         - Parece - disse a mulher, at"nita - o som de uma
guitar-
       ra eltrica.
         O filho de Odacir, desde o bero, fazia a sua prpria
trilha
       sonora. Para a tristeza do pai, produzia at efeitos
especiais, co-
       mo cmara de eco. Cresceu sem dizer uma palavra. At
hoje anda
       por dentro de casa reverberando como um sintetizador
eletr"ni-
       co.  normal e feliz, mas o nico som mais ou menos
inteligvel -
       pelo menos para os seus pais - que faz  "tump tump",
imitando
       o contrabaixo eltrico.
         - Zit meu filho poc poc poc. Meu prprio filho poc
poc
       poc. - diz Oclacir.
         Poc, poc, poc.

       -53


       Toca a campainha e o homem vai abrir a porta, no sem
an

       tes dar um passo de dana. Na porta est  uma mulher. No
caso
       ,nulhee' eufemismo. Ela  mais do que isto. Se Deus
fosse man
       dar uma amostra do seu trabalho para concurso, mandaria
ela
       Preciso me lembrar desta frase para dize:- depois,
pensa ele.

       Que  logos, pensou ele. Que di logos! A noite prometi
            o

       apartamento. Em cima da mesa de centro h  um balde com
uma
       garrafa de champanha em  gua gelada e dois copos
compridos O

       Voc no falou que ia ter uma festa?
       Onde voc estiver,  uma festa.
       Mas voc disse -e haveria convido

       Mmm. Sim. Bem. Se eles chegarem eu
       "Se"? Quer dizer que eles podem no vir?

       Eles podem ter se esquecido de vir ... festa
       Ou eu posso ter esquecido de convidar...
       j  vi tudo. A festa  s ns dois.
       Eu prefiro grupos pequenos. Voc no?

       isto! A mulher sorri e rodopia no meio da sala. Seu
vestido bran-
       co esvoaa. Que pernas, que noite! Ele serve champanha
para os

       - Vou avisandourna coisa..
       - O qu?
       - Esta noite eu sou a Cinderela.
         CindereW Por qu?

         At a meia-noite me comportarei como uma dama..
       Ele ensaia um passo, arqueia uma sobrancelha e pergunta
lhe        da cama.

       - As bolinhas da champanha fazem ccegas no meu na-

       - Isso eu tambm fao e no sou champanha.
       - O qu?
       - Ccegas no seu nariz.
       - No entendi.
       - Esquece, esquece.
       No se pode acertar todas, pensa ele.
       - Voc no quer conhecer a minha biblioteca? -
pergunta.
       - Quero.
       - Venha. Traga o seu copo.
       - Mas, espere... Ali  o seu quarto.
       - Minha biblioteca fica no quarto. Os dois livros, ao
lado

          - Ento traga para c .
          - A cama?
          - Os livros.
          Ele a enlaa pela cintura. Rodopiam juntos, depois
caem no
       sof . Ele pega a garrafa de champanha e serve mais um
pouco.
          - Acho que voc est  querendo me embebedar
          Quem diz isto  ele.
          - Se voc j  abriu a champanha agora, o que  que
ns va-
       mos abrir ... meia-noite? - pergunta ela.
          - Talvez um zper ou dois
          Preciso me lembrar de tudo isto para contar depois,
pensa
       ele. De algum lugar do apartamento vem a voz de Frank
Sinatra.
       Ele:

       chapu.

       -  meia-noite.
       - Como  que voc sabe?
       - Meu cuco.
       - Pensei que fosse o Frank Sinatra---
       - A imitao no  perfeita? Ele usa at o mesmo tipo
de

       Ela tenta levantar do sof .
       - Hora de ir embora
       - Daqui voc no sai, Cinderela.
       - Mas voc no disse que era o meu servo'
       - Disse.
       - Pois eu estou ordenando que voc me leve para casa.
       - No.

       56

         - Por que no?
         - Porque bateu a meia-noite e eu me transf orrnei num
rato!
       Feliz Ano Novo.

       a

         Meia hora depois ela est  nua, embaixo dos lenis, e
ele est
       numa mesa do quarto, escrevendo.
         - Voc no vem? - pergunta ela.
         - S um pouquinho. Estou tomando umas notas para no
       esquecer nada depois. Quando voc falou que a champanha
fazia
       ccegas no nariz, o que foi que eu disse mesmo?

       57


       O Recital

         Uma boa maneira de comear um conto  imaginaiuma si-
       tuao rigidamente formal - digamos, um recital de
quarteto de
       cordas - e depois comear a desfi -la, como um pul"ver
velho.
       Ento, vejamos. Um recital de quarteto de cordas.
         O quarteto entra no palco sob educados aplausos da
seleta
       platia. So trs homens e uma mulher. A mulher, que 
jovem e
       bonita, toca viola. Veste um longo vestido preto. Os
trs homens
       esto de fraque. Tomam os seus lugares atr s das
partituras. Da
       esquerda para a direita: um violino, outro violino, a
viola e o vio-
       loncelo. Deixa ver se no esqueci nenhum detalhe. O
violoncelis-
       ta tem um grande bigode ruivo. Isto pode se revelar
importante
       mais tarde, no conto. Ou no.
         Os quatro afinam seus instrumentos. Depois, silncio.
       Aquela expectativa nervosa que precede o incio de
qualquer con-
       certo. As ltimas tossidas da platia. O primeiro
violinista con-
       sulta seus pares com um olhar discreto. Esto todos
prontos. o
       violinista coloca o instrumento sob o queixo e
posiciona seu arco.
       Vai comear o recital. Nisso...

       58

         Nisso, o qu? Qual  a coisa mais inslita que pode
aconte-
       cer num recital de um quarteto de cordas? Passar uma
manada de
       zebus pelo palco, por tr s deles? No. Uma manada de
zebus pas-
       sa, parte da platia pula das suas poltronas e procura
as sadas em
       pnico, outra parte fica paralisada e perplexa, mas
depois tudo
       volta ao normal. O quarteto, que manteve-se firme em
seu lugar
       at o ltimo zebu - so profissionais e, mesmo, aquilo
no pode
       estar acontecendo - comea a tocar. Nenhuma explicao
 pe-
       dida ou oferecida. Segue o Mozart.
         No.  preciso instalar-se no acontecimento, como a
semen-
       te da confuso, uma pequena incongruncia. Algo que
crie ape-
       nas um mal-estar, de incio e chegue lentamente, em
etapas suces-
       sivas, ao caos. Um morcego que posa na cabea do
segundo violi-
       nista durante um pizzicato. No. Melhor ainda. Entra no
palco
       um homem carregando uma tuba.
         H  um murmrio na platia. O que  aquilo? O homem
en-
       tra, com sua tuba, dos bastidores. Posta-se ao lado do
violonce-
       lista. O primeiro violinista, retesado como um
mergulhador que
       subitamente descobriu que no tem  gua na piscina, olha
para a
       tuba entre fascinado e horrorizado. O que  aquilo?
Depois de al-
       guns instantes em que a tenso no ar  como a corda de
um violi-
       no esticada ao m ximo, o primeiro violinista fala:
         - Por favor...
         - O qu? - diz o homem da tuba, j  na defensiva. -
Vai
       dizer que eu no posso ficar aqui?
         - O que o senhor quer?
         - Quero tocar, ora. Podem comear que eu acompanho.
         Alguns risos da platia. Rudos de impacincia.
Ningum
       nota que o violoncelista olhou para tr s e quando deu
com o to-
       cador de tuba virou o rosto em seguida, como se
quisesse se es-
       conder. O primeiro violinista continua:
         - Retire-se, por favor.
         - Por qu? Quero tocar tambm.
         O primeiro violinista olha nervosamente para a
platia.
       Nunca em toda a sua carreira como lder do quarteto
teve que en-
       frentar algo parecido. Uma vez um mosquito entrou na
sua nari-
       na durante uma passagem de Vivaldi. Mas nunca uma tuba.
         - Por favor. Isto  um recital para quarteto de
cordas. Va~
       mos tocar Mozart. No tem nenhuma parte para a tuba.

       59


         - Eu improviso alguma coisa. Vocs comeam e eu fao
o
       uni-p -p .
         Mais risos da platia, Expresses de escndalo. De
onde sur~
       giu aquele homem com uma tuba? Ele nem est  de fraque.
Segun-
       do algumas verses veste uma camiseta do Vasco. Usa
chinelos
       de dedo. A violista sente-se mal. O violinista ameaa
chamar al-
       gum dos bastidores para retirar o tocador de tuba a
fora. Mas
       ele aproxima o bocal do seu instrumento dos l bios e
ameaa:
         - Se algum se aproximar de mim eu toco pof!
         A perspectiva de se ouvir um pof naquele recinto
paralisa a
       todos.
         - Est  bem - diz o primeiro violinista. - Vamos
conver-
       sar. Voc, obviamente, entrou no lugar errado. Isto 
um recital
       de cordas. Estamos nos preparando para tocar Mozart.
Mozart
       no tem um-p ~p .
         - Mozart no ' sabe o que est  perdendo - diz o
tocador de
       tuba, rindo para a platia e tentando conquistar a sua
simpatia.
         No consegue. O ambiente  hostil. O tocador de tuba
mu-
       da de tom. Torna-se ameaador:
         - Est  bem, seus elitistas. Acabou. Onde  que vocs
pen-
       sam que esto, no sculo XVIII? J  houve 17 revolues
popula-
       res depois de Mozart. Vou confiscar estas partituras em
nome do
       povo. Vocs todos sero interrogados. Um a um, p -p .
         Torna-se suplicante:
         - Por favor, s o que eu quero  tocar um pouco
tambm.
       Eu sou humilde. No pude estudar instrumento de corda.
Eu
       mesmo fiz esta tuba, de um Volkswagen velho. Deixa...
         Num tom sedutor, para a violista:
         - Eu represento os seus sonhos secretos. Sou um
produto
       da sua imaginao ffibrica, confessa. Durante o Mozart,
neste
       quarteto antissptico,  em mim que voc pensa. Na
minha barr-
       ga e na rrnha tuba f lica. Voc quer ser violada por
mim num al-
       legro a5sai, confessa...
         Finalmente, desafiador, para o violoncelista:
         - Esse bigode ruivo. Estou reconhecendo.  o mesmo
bigo-
       de que eu usava em 1968. Devolve!
         O tocador de tuba e o violoncelista atracam-se. Os
outros
       membros do quarteto entram na briga. A platia agora
grita e pu-
       la.  o caos! Simbolizando, talvez, a falncia final de
todo o siste-

       60

       i

       ma de valores que teve incio com o iluminismo europeu
ou o
       triunfo do instinto sobre a razo ou, ainda, uma pane
mental do
       autor. Sobre o palco, um dos resultados da briga  que
agora
       quem est  com o bigode ruivo  a violista. Vendo-a
assim, o toca-
       dor de tuba para de morder a perna do segundo
violinista, abre os
       braos e grita: "Mame!"
         Nisso, entra no palco uma manada de zebus.
       61


       Suspiros

          Um homem foi procurar uma vidente. Ela leu a sua
mo, em
       silncio. Depois espalhou as cartas na sua frente e as
examinou
       longamente. Finalmente olhou a bola de cristal. E
concluiu:
          - Voc vai morrer num lugar com  gua.
          - Uma banheira?
          - No, Um lugar maior.
          - Uma piscina
          - Vejo uma cidade. gua por todos os lados. Em vez
de
       ruas, tem  gua
          - Veneza!
          -Isso.
          - Eu vou morrer em Veneza?
          - Vai.
          - Como?
          - Hmmm. Veio barcosG"ndolas Espere! Uma mu-

       lher.
           Quem  ela?
           Voc no a conhece. Ela aparecer  em sua vida em
Vene-
       za. G"ndolas, sim, g"ndolas. Alguma coisa refletida nas
 guas

       escuras do Grande Canal.  a lua. Uma lua cheia. O
gondoleiro
       canta uma msica antiga. Estranho...
       - O qu?
       - A mulher. Tem uma m scara vermelha. Veste uma capa
       preta, e uma m scara vermelha tapa o seu rosto.
       - Ela no tira a m scara?
       - Calma. Tira.
       - E ento?
       - Ela  linda. Seus olhos so roxos. Ela diz uma
palavra...
       No consigo decifrar...
       - Tente.
       - ... Alclabar. Isso. Alclabar.
       Alclabar...
       - Ela dir  essa palavra trs vezes antes do raiar do
dia. A
       primeira no Grande Canal. A segunda sob a Ponte dos
Suspi-
       ros...

       - Continue.
       - Vocs chegam a um porto. O luar banha tudo. H  um
       cheiro de jasmim no ar. Vocs entram num castelo. Vejo
m rmo-
       re. Cristais. Um vulto...
       - Quem ?
       - No deu para ver. Vocs sobem uma escadaria.
       - ?ara o quarto?

          - Espere um pouquinho. A palavra
          - Aldabar
          - ~Idabar. Ela dir  trs vezes?

            E.
            Mas at agora s disse duas.
            Exato.
            Continue.
            Vocs entram num quarto. H  uma cama enorme, ba-
       nhada de luar. A mulher desaparece sem fazer rudo.
          - Onde  que ela foi?
          - Estou tentando verEst  escuro.
          - Mas e a lua?
          - Desapareceu. Deve ser uma nuvem. Ah, ela voltou.
          - A lua?
          - E a mulher. Ela  branca. Est  nua.
          - Sim?

       63


       outra vez.

       Ela chama voc para a cama. Voc a possui. Escureceu

            Outra nuvem.
            Agora vejoUm jardim. Sim, um jardim. Vejo
jasminei-
       ros. Vocs esto num jardim. Comea a amanhecer. Vejo
um pa-
       vo e um chafariz.
            E a mulher?
            Ela est  falando. Diz uma palavra. Alclabar
            Alclabar. A terceira vez
             o sinal. Voc vai morrer.
            ComO?
            No sei confuso.
            Insista.
            Cuidado com corcundas e licores verdes

       o

         O homem,  claro, jamais chegou perto de Veneza
depois
       disto. Continua vivo. Mas de vez em quando suspira e
diz:
       - O que eu no devo estar perdendo...

       64

       Outra do analista de Bag

         Contam que os mtodos pouco ortodoxos do analista de
Ba-
       g (embora ele diga que  "mais ortodoxo que caixa de
maizena")
       tm levado uma multido de pacientes a procur -lo. Ele
foi obri-
       gado a fazer uma triagem na sua clientela. Instruiu sua
recepcio-
       nista Lindaura Cuma chinoca que eu estava criando mas
passou
       do ponto") a cortar,os complexos menores, inclusive
todos os de
       inferioridade e "os Edipos de ambulatrio". 56 aceita
casos dif-
       ceis pois, como diz, "cavalo manso  pra ir ... missa".
Foi o caso da-
       quele estancieiro rico que j  entrou dizendo:
         - Meu caso-  de esquizofrenia, doutor.
         - Oigal! J  vi que o ndio velho  dos que l bula.
Essa pa-
       lavra eu s aprendi a dizer dois dias antes da
formatura, Mas se
       abanque,no m s.
         O estancieiro se deitou no div coberto com um
pElego. O
       analista comeou a limpar as unhas do p com um faco.
Falou:
       - ?uer dizer que o amigo est  com esquizofrenia.
           r:

       - Da braba?
       - Da braba.

       65


       Dona Gerda

       eu sou outro.
           Sei.
           Um dia sou alegre, bonacho, mo aberta. No outro
sou
       carrancudo, brigo e no abro a mo nem pra espantar
mosca.
          - Mas que coisa.
          - Eu tenho cura, doutor?
          - Bueno. Vai ser um tratamento mais comprido que
bom~
       bacha de gringo.
          - Tudo bem.
          - Mais caro que argentina nova na zona.
          - No me importo.
          - j  vi que o amigo est  nos seus dias de
cordeirito.
            ...
           Linclaura!
           Chamou?

       - Como se manifesta a bicha?
       - Personalidade dupla doutor. Um dia eu sou um, no
outro

       do.

       - Prepara a conta que o ndio velho aqui vai pagar
adianta-

         O estancieiro comeou se levantar para protestar mas
o ana-
       lista de Bag o mandou de volta ao pelego com um
cabeao. E
       avisou:

       - Se conta pro outro, te capo.

       60

         Dona Gerda  uma vtima destes tempos transitrios.
De-
       pois de muitos anos de trabalho duro e srio, Dona
Gerda con-
       quistou uma slida reputao. Era uma das melhores
profissio-
       nais do ramo. Mdicos a recomendavam com absoluta
confian-

       a.

         - O meu trabalho terminou. Agora  com a Dona Gerda.
         - Algumas sesses com a Dona Gerda daro um jeito
nisso.
         - Vou lhe dar um endereo. Dona Gerda.  a melhor que
       h . Em poucas semanas voc no sentir  mais nada.
         Dona Gerda tambm mantinha um pequeno anncio no
       jornal. Em casos excepcionais, atendia a domiclio. Mas
normal-
       mente recebia os clientes na sua casa, pequena mas bem
ajeitada,
       numa vila em Botafogo. No cobrava muito nem pouco.
Dava
       para viver confortavelmente. Mesmo viva, Dona Gerda
criara e
       educara um filho e uma filha. Tinha quatro netos. Nas
horas va~
       gas, gostava de cozinhar. Seu strudel era famoso. E -
embora


       nunca tivesse feito qualquer curso na sua especialidade
-
       mantinha-se atualizada na sua profisso. Uma slida
reputao.

       67

       telefonado.

         Tudo comeou no dia em que bateu na porta o que Dona
       Gerda chama at hoje, com seu sotaque germnico, de
       homenzinho".
         - Al" -- disse, sorrindo com antecipao, o
homenzinho.
         - Bom dia - disse Dona Gerda.
         - Vi o anncio...
           Pois no. O senhor queria marcar uma hora?
           Ah, precisa marcar hora?
           Ach, precisa. Estou muito ocupada. O senhor devia
ter

           Mas... A Gerda  voc?
           Sim, senhor.
           Mmm. Interessante. Posso... - e aqui, conta Dona
Ger-
       da indignada, o homenzinho piscou - ... entrar?
         - Por favor.
         Dentro da saleta de recepo, decorada com pequerios
qua-
       dros do Trol e um retrato oval do falecido Dieter, o
homenzinho
       examinou tudo, com um ar divertido.
         - Confesso que no  bem o que eu esperava...
         - O que  que o senhor esperava? - perguntou Dona
Ger-
       da, j  com alguma impacincia. Ela tinha um bom
temperamen-
       to, mas suas raras exploses eram temveis. Uma vez
atirara um
       encanador pela janela.

       - Sei l  - respondeu o homenzinho. - Alguma coisa me-

       nos caseira...
         - Hsrhmsh - disse Dona Gerda. Era um som que ela
fazia
       que tinha muitos significados. Se conhecesse a Dona
Gerda o ho-
       menzinho teria sado dali naquele instante. Mas no
saiu. Conti-
       nuou sorrindo.
         - Vou buscar o livro de apontamentos - disse Dona
Ger-

       da.

       citante..

       68
       Quando voltou encontrou o homenzinho j  sem casaco.
       - Voc tambm no  o que eu esperava, Gerda...
       - Sim.
       -- Mas confesso que a idia me atrai. Algo maternal...
 ex~

       - Hsrmsch.
       - Esse cheiro, o que ?
       - Strudel.
       - StrudeU! Tive uma idia. Vamos fazer com polvilho,


         - O qu?
         - A massagem. Primeiro manteiga, depois polvilho. E
eu
       passo gelia em voc. Tem gelia de uva? Era a que
mame usava,
       em casa.
         - O senhor pas ' s gelia de uva em mim?
         - Que histria  essa de senhor? Meu nome  Alberi.
Ma-
       me me chamava de Bibi. Me chame de Bibi, Gerda!
         - Dona Gerda.
         - Escute aqui. Esquece a hora marcada. Vamos logo, Eu
       pago o dobro. Onde  o quarto? Eu prefiro na mesa da
cozinha.
       Vem, Ger...
         O homenzinho foi jogado contra a parede. Dona Gerda
diz
       que s teve o cuidado de no acertar o retrato do
falecido Dieter.
       Pode-se imaginar a cara do homenzinho. Terror,
incompreenso
       e dor, porque quando Dona Gerda atirava algum contra a
pare-
       de, se no era para consertar a coluna era para doer.
         - Mas... o que  isso? - perguntou o homenzinho, do
       cho.
         - O que  isso, eu pergunto - gritou Dona Gerda. - O
       que  isso?
         - Mas... o anncio no jornal... Gerda Massagens...
         - Massagens e no sem-vergonhice com gelia!
         - Mas...
         - Saia da minha casa. Raus! Raus!

       o

         Depois do homenzinho, vieram v rios. Alguns telefona-
       vam. Que tipo de massagem o senhor precisa, perguntava
Dona
       Gerda no telefone, j  desconfiada.
         - Olha, qualquer coisa r pida porque eu tenho que
voltar
       para So Paulo daqui a pouco e...
         Dona Gerda desligava o telefone. Pouca vergonha.
Decidiu
       mudar o anncio no jornal. Botou: "Gerda Massagens.
Massa-
       gens mesmo!" A piorou. Comearam a aparecer homens com
       idias de superr-nassagens, de xtases erticos jamais
alcanados.
       Dona Gerda acabou desistindo. Tirou o anuncio do
jornal. Tirou
       a placa com seu nome e Massagista escrito embaixo da
porta da
       sua casa. Hoje s trabalha com os clientes recomendados
por me-

       69


       dicos. E assim mesmo, com precaues. Mantm um rolo de
mas-
       sa ... mo, junto com o talco e o leo,
         - O que  isso, Dona Gerda? A senhora no vai me
passar
       esse rolo de massa...
         - Ach, no. O rolo no  pra massagem.  pra boric,
         - Pra bonc?
         - Anda todo mundo muito louco. Se o senhor tambm re-
       solve virar louco...

       sagem...

       - O que acontece?
       - Eu pego o rolo e bonc na cabea.
       - Ora, o que  isso, Dona Gerda?
       - Eu queria saber. O que  isso? Massagem no  mais
mas-

       E Dona Gerda suspira. So os tempos, so os tempos.

       70

       Conversas de bar

       trio!

       - Garom, mais dois chopes!
       - Um brinde ao nosso reencontro.
       - Um brinde aos bons tempos!
       - Aos bons tempos.
       - Lembra aquela linha mdia? Voc, eu e o Cadaro. Que

       - Que trio.
       - A melhor linha de halfs do mundo.
       - Bom. Pelo menos do bairro.
       - Um brinde a ns.
       - A ns.
       - Garom! Mais dois.
       - "Linha de halfs" Como ns somos antigos!
       - Bons tempos. Todo mundo unido
       - Todo mundo mais moo, tambm.
          juventude!
          juventude!
         Ao Grmio Esportivo, Recreativo e Cuitural Auriverde!
         Ao Aurverde!

       71


          - Nunca entendi aquele -Cultural-...
          - Tinha as sesses de safadeza. As revistinhas,
lembra?
       Aquilo era cultural paca.          inua
         - Engraado, a gente se encontrar assim. Voc cont
       morando aqui no bairro?

       nho.

       - Sempre. Casei com a Nelci, lembra dela?
       - A Nelci do Seu Nestor?
       - No, a Nelci da Dona Ant"nia. Irrn do Cambota.
       - Claro! Puxa, mas quando eu sa daqui ela era deste
tama-

         - Pois . Mas cresceu um pouquinho.
         - Puxa. Escuta aqui, e o Cadaro?
         - Bom...
         - Que jogador!,Sempre esperei que ele acabasse em
algum
       clube grande. Era um Nlton Santos, lembra? A
elegncia. A inte-
       ligncia. Sabia tudo de bola. Sabia tudo da vida
tambm. Lembra
       quando ele nos livrou de levar um pau na vila? Tinha
uma con-
       versa que no era mole. Grande cara. Nunca mais vi.
Deve ter
       ido longe. Garom! Mais dois!
         - Quando ele vier, d uma boa olhada nele.
         - Em quem?
         - No garom.
         - Por qu?
         -  o Cadaro.
           O QU?!
           E.
           No pode ser. Pelo amor de Deus. O Cadaro tinha a
       nossa idade. Esse a  um velho. Caminha arrastando os
ps.,
         - Ele teve uma vida meio complicada...
         - Mas por que ele no falou comigo?
         - Acho que ficou com vergonha.
       - O Cadaro... No era ele que a me teve um problema?
       - , foi o que acabou com ele. Olha, a vem ele. Vou
per-
       guntar se ele se lembra da nossa linha mdia.
         - No. Faz de conta que eu no sei quem ele .
         - Certo.
         - Obrigado, garom. Ta caprichado.
         - Outro brinde? A vida!
         - No.  vida no.

       72

         Tudo que o Mafra dizia o Tarol duvidava. Eram
insepar -
       veis, mas viviam brigando. O Mafra contava histrias
fant sticas
       e o Tarol fazia aquela cara de conta outra.
         - Uma vez...
         - L  vem histria.
       - Eu nem comecei e voc j  est  duvidando?
           Duvidando no. Eu no acredito mesmo.
       - Mas eu nem contei ainda!
           Ento conta.
         - Uma vez eu fui num baile s de pernetas e...
         - Eu no disse? Eu no disse?
         O Mafra...s vezes fazia questo de provar suas
histrias para
       O Tarol. Depois invocava o seu testemunho:
         - Tarol, eu sou ou no sou pai-de-santo honor rio?
         O Tarol relutava e depois confirrnava. Mas em seguida
arre~
       matava:

       tino.

       - Tambm, aquele terreiro est  aceitando at turista
argen-

         Ento veio o caso do apito. Um dia, numa roda no bar,
o
       Mafra revelou:
         - Tenho um apito de chamar mulher.
         - Um qu?!
         - Um apito de chamar mulher.
         Ninguem acreditou. O Tarol chegou a bater com a
cabea
       na mesa, gemendo:
         - Ai, meu Deus' Ai, meu Deus!
         - No quer acreditar, no  reclita. Mas tenho.
         - Ento mostra.
         - No est  aqui. Est  em casa. Aqui no precisa
apito.  s
       dizer -vem c "
         O Tarol gesticulava para o cu, apelando por justia.
Mais
       est , Senhor!
         - Um apito de chamar mulher! Era s o que faltava!
         Masaconteceu o seguinte: MafraeTarol foram juntos
numa
       viagem (Mafra queria provar ao Tarol que tinha mesmo
terras na
       Amaz"nia, uma ilha que mudava de lugar conforme as
cheias) e o
       avio caiu em plena selva. Por sorte, ningum se
machucou, to-
       dos sobreviveram e depois de uma semana a frutas e  gua
da chu-

       73


       v foram salvos pela FAB. Na volta, cercados pelos
amigos do
       bar, Maf r e Taroi contaram sua aventura . E Maf r,
triunf ante,
       pediu para o Tarol:
          - Agora, conta do meu apito.
          - Conta voc - disse Tarol, contrafeito.
          - O apito existia ou no existia?
          Tarol, chateadissimo, fez que sim corri a cabea.
          - Conta, conta - pediram os outros.
          - Foi no quarto ou quinto dia - contou Mafra. - J
sabia~
       mos que ningum morreria e que o salvamento era s
questo de
       tempo. A FAB j  tinha nos localizado. E ento, naquela
descon-
       trao geral, tirei o meu apito do bolso.
          - O tal de chamar mulher~
          - Exato. Soprei o apito.
          - E ento?
          - Ento, pimba.
          - Apareceram mulheres?
          - Coisa de dez, quinze minutos. Trs mulheres.
          Todos se viraram para o Tarol, incrdulos.
            E verdade?
             - concedeu o Tarol.
          Fez-se um silncio de puro espanto. At que o Tarol
falou
       outra vez.
          - Mas tambm, cada bagulho!

       74

       O Assalto

         Quando a empregada entrou no elevador, o garoto
entrou
       atr s. Devia ter uns dezesseis, dezessete anos. Preto.
Desceram no
       mesmo andar. A empregada com o corao batendo. O
corredor
       estava escuro e a empregada sentiu que o garoto a
seguia. Botou a
       chave na fechadura da porta de servio, j  em pnico.
Com a por-
       ta aberta, virou-se de repente e gritou para o garoto:
         - No me bate!
         - Senhora?
         - Faa o que quizer, mas no me bate,
         - No, senhora, eu...
         A dona da casa veio ver o que estava havendo. Viu o
garoto
       na porta e o rosto apavorado da empregada e recuou, at
pressio-
       nar as costas contra a geladeira.
         - Voc est  armado?
         - Eu? No.
         A empregada, que ainda no largara o pacote de
compras,
       aconselhou a patroa, sem tirar os olhos do garoto:
         -  melhor no fazer nada, madame. O melhor  no
gri-
       tar.

       75


         - Eu no vou fazer nada, juro! - disse a patroa,
quase aos
       prantos. - Voc pode entrar. Pode fazer o que quizer.
No preci-
       sa usar a violncia.
         O garoto olhou de uma mulher para outra. Apalermado.
       Perguntou:
         - Aqui  o ?12?
         - O que voc quiser. Entre. Ningum vai reagir.
         O garoto hesitou, depois deu um passo para dentro da
cozi-
       nha. A empregada e a patroa recuaram ainda mais. A
patroa
       esgueirou-se pela parede at chegar ... porta que dava
para a saleta
       de almoo. Disse:
         - Eu no tenho dinheiro. Mas o meu marido deve ter.
Ele
       est  em casa. Vou cham -lo. Ele lhe dar  tudo.
         O garoto tambm estava com os olhos arregalados.
Pergun-
       tou de novo:

       ?12.

       - Este  o ?12? Me disseram para pegar umas garrafas no

         A mulher chamou, com a voz trmula:
         - Henrique!
         O marido apareceu na porta do gabinete.Viu o rosto da
mu-
       lher, o rosto da empregada e o garoto e entendeu
tudo.Chegou a
       hora, pensou. Sempre me indaguei como me comportaria no
ca-
       so de um assalto. Chegou a hora de tirar a prova.
         - O que voc quer? - perguntou, dando-se conta em se-
       guida do ridculo da pergunta. Mas sua voz estava
firme.
         - Eu disse que voc tinha dinheiro - falou a mulher.
         - Fao um trato com voc - disse o marido para o
garoto
       - dou tudo de valor que tem em casa, contanto que voc
no to-
       que em ningum.
         E se as crianas chegarem de repente? pensou a
mulher. Meu
       Deus, o que esse bandido vai fazer com as minhas
crianas? O ga-
       roto gaguejou:
         - Eu... Eu... E aqui que tem umas garrafas para
pegar?
         - Tenho um pouco de dinheiro. Minha mulher tem jias.
       No temos cofre em casa, acredite em mim. No temos
muita coi-
       sa. Voc quer o carro? Eu dou a chave.
         Errei, pensou c, marido. Se sair com o carro, ele vai
querer
       ter certeza de que ningum chamar  a polcia. Vai levar
um de
       ns com ele. Ou vai nos deixar todos amarrados. Ou
coi-sa pior...

       76

         - Vou pegar o dinheiro, est  bem? - disse o marido.
         O garoto s piscava.
         - No tenho arma em casa. E isso que voc est
pensando?
       Voc pode vir comigo.
         O garoto olhou para a dona da casa e para a
empregada.
         - Voc est  pensando que elas vo aproveitar para
fugir, 
       isso? - continuou o marido. - Elas podem vir junto
conosco.
       Ningum vai fazer nada. S no queremos violncia.
Vamos to-
       dos para o gabinete.
         A patroa, a empregada e o Henrique entraram no
gabinete.
       Depois de alguns segundos, o garoto foi atr s. Enquanto
abria a
       gaveta chaveada da sua mesa, o marido falava:
         - No  para agradar, no, mas eu compreendo voc.
Voc
        uma vtima do sistema. Deve estar pensando,
---esseburgus
       cheio da nota est  querendo me conversar", mas no 
isso no.
       Sempre me senti culpado por viver bem no meio de tanta
misria.
       Pode perguntar para minha mulher.Eu no vivo dizendo
que o
       crime  um problema social? Vivo dizendo. Tome.  todo
dinhei-
       ro que tenho em casa. No somos ricos. Somos, com
alguma boa
       vontade, da mdia alta. Voc tem razo. Qualquer dia
tambm
       comeamos a assaltar para poder comer. Tem que mudar o
siste-
       ma. Tome.
         O garoto pegou o dinheiro,meio sem jeito.
         - Olhe, eu s vim pegar as garrafas...
         - S"nia busque as suas jias. Ou melhor, vamos todos
bus-
       car as jias.
         Os quatro foram para a sute do casal. O garoto
atr s. No
       caminho, ele sussurrou para a empregada:
           Aqui  o ?12?
           Por favor, no! - disse a empregada, encolhendo-se.
         Deram todas as jias para o garoto, que estava cada
vez
       mais embaraado. O marido falou:

       f azer.

       - No precisa nos trancar no banheiro. Olhe o que eu
vou

         Arrancou o fio do telefone da parede.
         - Voc pode trancar o apartamento por fora e deixar
as
       chaves l  embaixo. Ter  tempo de fugir. No faremos
nada. S
       no queremos violncia.
         - Aqui no  o ?12? Me disseram para pegar umas
garrafas.

       77


         - Ns no temos mais nada, confie em mim. Tambm so-
       mos vtimas do sistema. Estamos do seu lado. Por favor,
v  em-
       bora!

       o

         A empregada espalhou a notcia do assalto por todo o
pr-
       dio. Madame teve uma crise nervosa :,ue durou dias. O
marido
       comentou que no dav... mais para viver nesta cidade. Mas
acha-
       va que tinha se sado bem. No entrara em pnico.
Ganhara um
       pouco da simpatia do bandido. Protegera o seu lar da
violncia. E
       no revelara a existncia do cofre com o grosso do
dinheiro, in-
       clusive dlares e marcos, atr s do quadro da ocialisca.

       78

       Direitos humanos

         - Famous lpanema Beach!
         Dentro do "nibus, os turistas exclamavam "oh!" com
entu-
       siasmo. lpanerna Beach! O motorista, Algerniro,
torcedor do
       Vasco, morador do Vidigal, sacudia a cabea cada vez
que ouvia
       a pronuncia da guia. Por que "lpanima"? Era Ipanema com
"e".
       Ipanirria" era frescura de gringo.
         - Vieira Souto Avenue.
         - Aveniu dos bacana - completou Algerniro. E, com um
       certo orgulho: - Caminho da minha casa.
         - What? - quis saber uma velhinha americana de dentro
       do seu vestido gasoso.
         - Rich people live here - explicou a guia.
         Mais "ohs" entusiasmados.
         - The girls from lpanerna - disse a guia, apontando
as ga-
       rotas da praia.

       guia.

       - Oh! - gritaram os turistas.
       - In front of us, Pedra da G vea, G vea Stone - disse a

       - Oh! - gritaram os turistas.

       79


       - O Budum Filho! - gritou o motorista.
       - Oh! - gritaram os turistas, com a freada do "nibus.
       - O que foi isso? - quis saber a guia, ajeitando o
chapeuzi-

       nho.
         - O Budum Filho. Um pilantro que me deve uma nota.
         - Mas voc no vai parar o "nibus agora para falar
com...
         - Ah, se no vou! Segura as pontas que eu j  volto.
         - Espera!

         Mas o Algemiro j  puxara o freio de mo e se
precipitara pa-
       ra a rua atr s do Budum Filho, filho do Budum Pai,
bicheiro e
       mau-car ter. Os turistas pularam dos bancos para
acompanhar a
       perseguio. Em minutos o Algerniro voltava com o Budum
Filho
       pela nuca.

       - Por que aqui? - gritou a guia~ sem saber o que dizer
para

       as velhinhas.

       lar.

       - Quero ter uma conversa com este pilantra num particu-

        Mas aqui?! ~
        Calminha. E r pido.
       O Budum Filho, ate~Torizado, apelou para uma americana.
       - Help, madame. E seqestro.
       - Help eu vou te mostrar, caloteiro.
       - Who is he? - perguntou a americana, mais aterrorizada

       do que ele, apontando para o Budum Filho.
         - Nothing, nothing - disse a guia. - A boy from
Ipane-

       ma.

       ro.

       - Oh!
       - O que foi que ele fez? - perguntou a guia para o
Algerni-

           Eu ganhei no bicho e ele no pagou. Enrustiu na
marra.
           Rlpi! - repetiu o Budum Filho.
         Com a revolta dos turistas, o Algemiro se viu
constrangido a
       largar a nuca do mauca. Mas segurou a sua camiseta. Que
tinha o
       nome de uma universidade americana na frente. As
simpatias dos
       turistas estavam com o Budum Filho.
         - E a minha grana, 6 calota!
         - Que grana?
         - Vem com essa. Vem com essa!
         -  Algemiro, t  me estranhando? Eu ia pagar.

       80

           Ia, no. Vai.
           Vou.
           Dvida de bicho  sagrada.
           What is it?
           Jogo do bicho. Animal game. Gambling.
           OR
         Um americano, cala quadriculada, se apresentou para
       mediar. Aquilo estava atrasando a excurso. Ele tinha
pago bom
       dinheiro para ver as vistas do Rio. No uma briga. Se
bem que as
       velhinhas, depois do susto inicial, pareciam estar
apreciando o in-
       cidente entre os nativos. O que iam ter para contar na
volta!
         Com a guia como intrprete, o americano prop"s que
pro-
       curassem uma autoridade para resolver o caso. A
proposta foi
       vetada pelas partes. E, mesmo, seria difcil encontrar
uma autori-
       dade por perto. Autoridade neste "nibus - disse o
~miro, sa-
       cudindo o Budum Filho com nfase - sou eu.
         - Rlpi, mister!
         - Come on, let him go - disse o americano.
         - No tem camone.
         - Algemiro - suplicou a guia- vamos primeiro terminar
       a excurso, depois voc cuida desse assunto.
         Algemiro estudou a questo. Depois concordou. O Budum
       Filho ficaria no "nibus, sob custdia dos turistas, at
o fim da ex-
       curso. Depois acertariam as contas. E tocaram o
"nibus.
         Budum Filho sentou ao lado de uma velhinha da
Minessota,
       que lhe ofereceu um drops de hortel. Foi fotografado
por dezes-
       sete polaroides simultaneamente. Com a ajuda da guia,
contou a
       histria da sua vida. O seu sonho era conhecer os
Estados Unidos.
         - L  no entra caloteiro! - gritou o Algerniro, mas
foi si-
       lenciado pelos protestos gerais.
         Ningum olhava mais a paisagem. Todas as atenes
esta-
       vam no Budum Filho. Ele era um artista. As madames
queriam
       ouvir um samba da sua autoria? Claro que queriam.
Budurn can-
       tou um samba do Martinho da Vila. O Algemiro tentou
       desmascar -lo mas foi desprezado. Quando o Budum Filho
aca-
       bou de cantar todos gritaram "oh!" e aplaudiram muito.
No fim
       da excurso alguns deram gorgetas para o Budurn Filho
(e nada
       para o Algemiro). A guia recomendou para o Algemiro que
no
       fizesse nenhuma loucura. A companhia podia ficar
sabendo e os

       81



       dois se dariam mal. O Algemiro disse que s ia ter uma
conversi-
       nha com o desgraado. E ficou sozinho no "nibus com o
Budum
       Filho.
          - Canta um samba agora, garoto.
          - Algemiro, se eu fosse voc eu no me tocava.
          - Ah, ?
            .
            E por qu?
            Porque eu passei um bilhete para uma das madame,
es-

          - Que bilhete?
          - Para o Carter.
          - Que Carter?
          - O Presidente. Se me acontecer qualquer coisa, ele
vai fi-
       car sabendo que foi voc. Respeita os meus direitos
humanos se-
       no vai ter.
            Ah ?
            .
            Pois quem  o presidente l   o Reagan e sabe o
que que o
       Reagan gosta de fazer com vagabundo?
          - No, Algemiro. No!

       82

       em lata.

       Lixo

         Encontram-se na  rea de servio. Cada um com seu
pacote
       de lixo.  a primeira vez que se falam.
       - Bcim dia...
       - Bom dia.
       - A senhora  do 61O.
       E o senhor do 612.
       E.

       lixo...

       pequena...

       - Eu ainda no lhe conhecia pessoalmente...
       - Pois-...
       - Desculpe a minha indiscrio, mas tenho visto o seu

       - O meu qu?
       - O seu lixo.
       - Ah...
       - Reparei que nunca  muito. Sua famlia deve ser

       - Na verdade sou s eu.
       - Mmmm. Notei tambm que o senhor usa muita comida

       83


             que eu tenho que fazer minha prpria comida. E
como
       no sei cozinhar
            Entendo.
            A senhora tambm
            Me chame de voc.
            Voc tambm perdoe a minha indiscrio, mas tenho
vis-
       to alguns restos de comida em seu lixo. Champignons,
coisas as-
       sim
             que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos
diferentes.
       Mas como moro sozinha, ...s vezes sobra
            A senhoraVoc no tem farrlia?
            Tenho, mas no aqui.
            No Esprito Santo.
            Como  que voc sabe?
            Yejo uns envelopes no seu lixo. Do Esprito Santo.
            E. Mame escreve todas as semanas.
            Ela  professora?
            Isso  incrvel! Como foi que voc adivinhou?
            Pela letra no envelope. Achei que era letra de
professora.
            O senhor no recebe muitas cartas. A julgar pelo
seu lixo.
            Pois 
            No outro dia tinha um envelope de telegrama
amassado.
            .
            M s notcias?
            Meu pai. Morreu.
            Sinto muito.
            Ele j  estava bem velhinho. L  no Sul. H  tempos
no nos

       vamos.

            Foi por isso que voc recomeou a fumar?
            Como  que voc sabe?
            De um dia para o outro comearam a aparecer
carteiras
       de cigarro amassadas no seu lixo.
             verdade. Mas consegui parar outra vez.
            Eu, graas a Deus, nunca fumei.
            Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos, de
comprimido no
       seu lixo
            Tranqilizantes. Foi uma fase. J  passou.
            Voc brigou com o namorado, certo?
            Isso voc tambm descobriu no lixo?

       84

       que...

         - Primeiro o buqu de flores, com o cartozinho,
jogado
       f ora. De is muito leno de papel.
         - EUc~orei bastante. mas j  passou.
         - Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
         -  que eu estou com um pouco de coriza.
         - Ah.
         - Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu
lixo.
         - . Sim. Bem. Eu fico muito em casa. No saio muito.
Sa-
       be como .
         - Namorada?
         - No.
         - Mas h  uns dias tinha uma fotografia de mulher no
seu li-
       xo. At bonitinha.
         - Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
         - Voc no rasgou a fotografia. Isso significa que,
no fun-
       do, voc quer que ela volte.
         - Voc j  est  analisando o meu lixo!
         - No posso negar que o seu lixo me interessou.
         - Engraado. Quando examinei o seu lixo, decidi que
gos-
       taria de conhec-la. Acho que foi a poesia.
         - No! Voc viu meus poemas?
         - Vi e gostei muito.
         - Mas so muito ruins!
         - Se voc achasse eles ruins mesmo, teria rasgado.
Eles s
       estavam dobrados.
         - Se eu soubesse que voc ia ler...
         - S no fiquei com eles porque, afinal, estaria
roubando.
       Se bem que, no sei: o lixo da pessoa ainda 
propriedade dela?
         - Acho que no. Lixo  dorrnio pblico.
         - Voc tem razo. Atravs do lixo, o particular se
torna p-
       blico. O que sobra da nossa vida privada se integra com
a sobra
       dos outros. O lixo  comunit rio. E a nossa parte mais
social. Ser
       isso?

       - Bom, a voc j  est  indo fundo demais no lixo. Acho

       - Ontem, no seu lixo...
       - O qu?
       - Me enganei, ou eram cascas de camaro?
       - Acertou. Comprei uns camares grados e descasquei.

       85


       de...

       Eu adoro camaro.
       Descasquei, mas ainda no comi.. Quem sabe a gente po-

       jantar juntos?
       .
       No quero dar trabalho.
       Trabalho nenhum.
       Vai sujar a sua cozinha.
       Nada. Num instante se limpa tudo e pe os restos fora.
       No seu lixo ou no meu?

       86

       Exquias

         Quis o destino, que  um gozador, que aqueles dois se
en-
       contrassem na morte, pois na vida jamais se
encontrariam. De
       um lado Cardoso, na juventude conhecido como Doso,
depois
       Doso, finalmente - quando a vida e a bebida e as
mulheres erra-
       das o tinham reduzido ... metade - Dozinho. Do outro lado
Ro-
       dopio Farias Mello Nogueira Neto, nenhum apelido,
comenda-
       dor, empres rio, um dos pr-homens da Repblica, grande
cha-
       to. Grande e gordo. O seu caixo teve que ser feito sob
medida.
       Houve quem dissesse que seriam necess rios dois
caixes, um pa-
       ra o Rodopio, outro para o seu ego. J  Dozinho parecia
uma
       criana no seu caixozinho. Um anjo encardido e
enrugado. De
       Dizinho no seu caixo, disseram:
         - Coitadinho.
         De Rodopio:
         - Como ele est  corado!
         Ficaram em capelas vizinhas antes do enterro. Os dois
vel-
       rios comearam quase ao mesmo tempo. O de Rodopio (Ro-
       tary, ex-ministro, benemrito do Jockey),
concorridssimo. O de
       Dozinho, em terrmos de pblico, um fracasso. Dozinho s
tinha

       87


       dois ao lado do seu caixo quando comearam os
velrios. Por
       coincidncia, dois garons.
         Tanto Dozinho quanto Rodopio tinham morrido por vai~
       dade. Dozinho, apesar de magro ("esqu lido" como o
descrevia,
       carinhosamente, Dona Judite, professora, sua nica
mulher leg-
       tima), se convencera que estava ficando barrigudo e
dera para
       usar um espartilho. Para no fazer m  figura no Dana
Brasil, on-
       de passava as noites. As mulheres do Dana Brasil, s
por brinca-
       deira, diziam sempre: "Voc est  engordando, Dozinho.
Olhe es-
       sa barriga". E Dozinho apertava mais o espartilho. Um
dia caiu
       na calada com falta de ar. No recuperou mais os
sentidos. Cla-
       ro que no morreu s disso. Bebia demais. Se metia em
brigas.
       Arriscava a vida por um amigo. Deixava a vida por um
amigo.
       Deixava de comer para ajudar os outros. Se no fosse o
esparti~
       lho, seria uma navalha ou uma cirrose.
         Rodopio tinha ido aos Estados Unidos fazer um
implante
       de cabelo e na volta houve complicaes, uma infeco e
-
       suspeita-se - uma certa demora deliberada de sua mulher
em

       procurar ajuda mdica.
         E ali estavam, Dozinho e Rodopio, sendo velados lado
a la-
       do. Dozinho, o bom amigo, por dois amigos. Rodopio, o
chato,
       por uma multido. O destino etc.
         Perto da meia-noite chegaram Dona Judite, que recm-
       soubera da morte do ex-marido e se mandara de Del
Castilho, e
       Magarra, o maior amigo de Dozinho. Magarra chorava mais
que
       Dona Judite. "Que perda, que perda", repetia, e Dona
Judite sa-
       cudia a cabea, sem muita convico. A capela onde
estava sendo
       velado Rodopio lotara e as pessoas comeavam a invadir
o vel-
       rio de Dozinho, olhando com interesse para o morto
desconheci-
       do, mas sem tomar intimidades. Magarra quis saber quem
era o
       figuro da capela ao lado. Estava ressentido com aquela
aflun-
       cia. Dozinho  que merecia uma despedida assim. Um
homem
       grisalho explicou para Magarra quem era Rodopio. Deu
todos
       os seus ttulos. Magarra ficou ainda mais revoltado.
No era ho~
       mem de aceitar o destino e as suas ironias sem uma
briga. Apon-
       tou com o queixo para Dozinho e disse:
         - Sabe quem  aquele ali?
         - Quem?
         - Cardoso. O ex-senador.
         - Ah... - disse o homem grisalho, um pouco incerto.

                        88

       1

       

         - Sabe a Lei Cardoso? Autoria dele.
         Em pouco tempo a notcia se espalhou. Estavam sendo
vela-
       dos ali no um, mas dois not veis da nao. A
freqncia na ca-
       pela de Dozinho aumentou. Magarra circulava entre os
grupos,
       enriquecendo a biografia de Cardoso.
         - Lembra a linha mdia do Fluminense? Dcada de 40.
Ta-
       tu, Matinhos e Cardoso. O Cardoso  ele.
         Tambm revelou que Cardoso fora um dos inventores do
       raio laser, s que um americano roubara a sua parte. E
tivera um
       caso com a Maria Callas na Europa. Algumas pessoas at
se lem-
       bravam.
         - Ah, ento  aquele Cardoso?
         - Aquele.
         A capela de Dozinho tambm ficou lotada. As pessoas
pas-
       savam pelo caixo de Rodopio, comentavam: "Est  com um
ti-
       m o aspecto", e passavam para a capela de Dozinho
Cumprimen-
       i vam Dona Judite, que nunca podia imaginar 4o,~
1),,-~zinho ti-
       vesse tanto prestgio (at um representante do
guvernador!), os
       dois garons e Magarra.
         - Grande perda.
         - Nem me fale - respondia Magarra.
         Veio a televiso. Magarra foi entrevistado. Comentou
a in-
       gratido da vida. Um homem como aquele - autor da Lei
Car-
       doso, cientista, com sua fotografia no salo nobre do
Fluminense'
       homem do mundo, um dos luminares do seu tempo - s era
       lembrado na hora da morte. As pessoas esquecem
depressa. O
       mundo  cruel. A cmara fechou nos olhos lacrimejantes
de Ma-
       garra. A esta altura tinha mais pblico para o Dozinho
do que pa-
       ra o Rodopio. Pouco antes de fecharem os caixes
chegou uma
       coroa, para Dozinho. Do Fluminense.
         O acompanhamento dos dois caixes foi parelho, mas a
te-
       leviso acompanhou o de Dozinho. O enterro de Rodopio
foi
       mais r pido porque o acadmico que ia fazer o discurso
esqueceu
       o discurso em casa. Todos se dirigiram rapidamente para
o enter-
       ro do Cardoso, para no perder o discurso de Magarra.
         - Cardoso! - bradou Magarra, do alto de uma l pide. -
       Mais do que exquias, aqui se faz um desagravo. A
posteridade
       trar  a justia que a vida te negou! Teus amigos e
concidados
       aqui reunidos no dizem adeus, dizem bem-vindo ... glria
eterna!

       89


         Naquela noite, no Dana Brasil, antes de subir ao
palco e
       anunciar o show de Rubio Roberto, a voz romntica do
Caribe,
       Magarra disse para Mariuza, a favorita do Dozinho, que
estra-
       nhara a sua ausncia no cemitrio ...quela manh. Mariuza
se de-
       fendeu:
       - Como  que eu ia saber que ele era to importante?
       E chorou, sinceramente.

       90

       Outra do analista de Bag

        Linclaura, a recepcionista do analista de Bag
(segundo ele
       uma recepcionista ecltica, pois recebe e d ") faz o
possvel para
       preveni-lo sobre os pacientes novos antes de entrarem
no consul-
       trio pois, como diz o analista, "se me entra um
arreganhado j
       recebo a tapa". Linclaura deixa um pedacinho de veludo
verme-
       lho ao alcance do paciente na sala de espera. Depois
escreve na
       sua ficha "No ligou para o veludo" ou "Passou a mo e
comeou
       a babar" ou "Botou na frente e foi ver no espelho se
ficava bem".
       Na ficha daquele cliente novo, de No Me Toque, ela
escrevera:
       "Viu o pedacinho de veludo e recuou horrorizado". Era
obvia-
       mente um paranico.
         - Te deita no div, tch -- disse o analista de Bag.
         - Pra qu? - quis saber o paciente, desconfiado.
         - Oigal bicho bem xucro - disse o analista com uma
risa-
       da agrad vel, enquanto torcia o brao do outro e
obrigava-o a se
       deitar.
         O paciente ficou se segurando sobre o pelego que
cobria o
       div, para evitar que arrancassem sua roupa. O analista
sentou
       no seu banquinho e pegou a cuia. Ofereceu:

       91

         - Um mate?
         - O que  qup voc quer dizer com isso?
         O analista de Bag passou a cuia para o outro, que
olhou pa-
       ra a ponta da bomba com apreenso.
         - Pode tomar que os n-crbios so de casa - disse o
ana-
       lista, mas o paciente devolveu a cuia. O analista
continuou:
         - Pues, qual  o problema?
         - Eu sabia. J  andaram espalhando que eu tenho
problema.
         - Se o amigo est  aqui  porque tem um problema. J
vi que
       pelo mate no .
         - Pare com esse tom condescendente!
         O analista de Bag fez fora para se controlar. Um
dia antes
       perdera a pacincia e atirara um masoquista contra a
parede. O
       masoquista no reclamara mas com o impacto se quebrara
o seu
       Freud entalhado em imbua. O outro continuou:
         - Todo mundo me persegue.
         - No  verdade.
         - Ningum acredita em mim.
         - Eu acredito.
         - Voc s diz isso pra me agradar.
         - Eu no estou querendo te agradar.
         - Por que no? Por que no?

       o

         Meia hora depois o analista de Bag, com argumentos
ra-
       zo veis, e com a ameaa de atirar a escarradeira na sua
cabea,
       convencera o paciente a abandonar sua mania de
perseguio.
       Ningum o estava perseguindo. Era pura fantasia.
         - E o jacar em baixo da cama?
         - No tem jacar. Jacar gosta de banhado. A tua cama
fica
       em lugar seco?
         - Fica.
         - Pois ento.
         Ele devia sair dali convencido que ningum nem nada
estava
       contra ele. Devia se esforar para levar uma vida
normal.
         - No sei se vou conseguir...
         - Vai.
         - Como e que voce sabe?

       92

         - Porque eu vou estar sempre atr s de ti, tch. Te
cuidan~
       do. De dia e de noite. A menor recada na parania,
...
         E o analista de Bag fez o gesto de quem acerta um
cutelao
       na nuca.

       93


       Cachorros

         O primeiro a chegar  o general aposentado com o seu
ca-
       chorro policial, Atlas. O general solta Atlas que d
trs voltas em
       alta velocidade pela pracinha, faz pipi, com alguma
solenidade,
       contra a mesma  rvore e depois senta junto ao banco do
general.
       Sempre o mesmo banco.
         Quando comeam a chegar as bab s e as crianas, Atlas
fica
       inquieto. D  alguns latidos e ameaa levantar. O
general o adver-
       te:

         - Quieto.
         Atlas treme, mas se controla. S sair  do lugar com
uma or-
       dem do dono. Uma vez desobedeceu. Uma bola de borracha
che-
       gou ao alcance dos seus dentes e ele a estraalhou
diante do olhar
       horrorizado das crianas e das bab s. Houve protestos
mas o ge-
       neral assegurou que aquilo no se repetiria. Agora,
sempre que
       uma bola chega perto de Atlas h  um silncio de
expectativa na
       pracinha. Atlas treme, mas se controla.
         Depois de Atlas e do general chegam Rex, um Boxer, e
o co-
       mendador. O comendador deixa Rex solto. De vez em
quando le-
       vanta do banco que compartilhar , durante toda a manh,
com o

       94

       general e procura Rex com o olhar. Rex  brincalho e
nervoso.
       No tem lugar certo para fazer pipi.
         O general e o comendador conversam. O comendador afa-
       ga a cabea de Atlas.
         - Como vai essa fera?
         O general responde por Atlas.
         - Vai bem. E Rex?
         - timo.
         Os dois trocam histrias dos cachorros. Quando ouve
falar
       o seu nome, Atlas empina as orelhas. Vive na esperana
de uma
       ordem do general. Atacar! Mas a ordem nunca vem.
           O Rex anda um pouco rebelde.  a vida ~m apartamen-

       to...

         - O Atlas no tem esse problema. Ou, se tem, no
demons-
       tra. Disciplina.
         '~) comendador suspira. Rex no  mais o mesmo. Tudo
co-
       meou depois do acasalamento. Rex no se acostumou mais
com
       a vida pacata da casa. Vive sonhando com aventuras. O
comen-
       dador no sabe o que fazer.
         Chega Frufru, um Pequins, e Dona Romaria. O general
e o
       comendador no se sentem ... vontade com aquele pequeno
ani-
       mal, dado a ataques de histeria. Dona Rom ria fala com
Frufru
       sem parar.
         - O que , minha negra? Conta pra mame, conta. Est
       contente, no , biju? Vai brincar com o, 1 tlas, vai.
Conta pra ele
       o que voc andou fazendo dentro de casa, conta, sua
sem-
       vergonha. Vai, lindeza.
         Frufru corre para brincar com Atlas. O policial fica
impassi-
       vel. Olha para seu dono como que implorando uma ordem
para
       acabar com o tormento. Frufru pula em redor de Atlas e
late, es-
       ganiada.
         Baixinho, para que Dona Rom ria no oua, o
comendador
       comenta para o general:
         - Frufru...
         - O que a gente tem que agentar...
         - E esse no  dos piores.
         - O que eu no agento  cachorro com nome diferente.
         - Sei o que voc quer dizer.
         - Outro dia apareceu uma dona aqui com um Basset cha-
       rnado dipo. dipo!

       95

         - No d . Nome engraadinho, no d .
         O comendador levanta para procurar Rex. Onde andar
es-
       se cachorro? O general continua:
         - Cachorro tem que ter nome de cachorro. Atlas. Tupi.
         - Rex...
         - Rex. Tapir.
         - Tapir, no sei no.
         - No m ximo Tapir.
         Chega um par de Cocker Spaniel, novos na praa. Com
eles
       um homem estranho. Alto, de barba bem aparada, a
camiseta
       colada ao corpo e calas jeans muito justas. Senta no
mesmo ban-
       co com o comendador e o general.
         - Bons-dias!
         O comendador e o general se entreolham. O
recm-chegado
       solta seus cachorros da coleira dupla e recomenda.
         - Allez, allez. A vida social  muito importante.
Misturem-

       se.

         Para o general e o comendador, ele explica:
         - Os dois so muito tmidos.
         Os dois saem trotando, sem muito entusiasmo.
         - No so umas graas?
         S Dona Rom ria concorda. O general, o comendador e
       Atlas ficam mudos. O recm-chegado continua:
         -  uma luta para tir -los de casa. Se pudessem
ficariam ati-
       rados no tapete persa o dia inteiro. So uns lnguidos!
Uns ln-
       guidos!
         O general limpa a garganta. Pergunta:
         - Como  o nome deles?
         - Um se chama Rmbaud e o outro Verlaine.

         - Sim.
       Alguma coisa no tom de voz do seu dono faz Atlas ficar
aler-
       Talvez agora venha a ordem que ele espera h  tanto
tempo.
       Atacar! Estraalhar! Mas quem fala  o comendador.
           Onde  que est  o Rex?
         O Boxer desapareceu. O comendador sai a procur -lo
por
       toda a praa. Rex foi visto pela ltima vez seguindo
uma cadela
       vira-lata, rua acima. O dono dos Cocker Spaniel
comenta:
         - Quem me dera que os meus fossem assim, despachados.
       Mas so uns bobocas. O Rimbaud ainda tem personalidade,
mas
       o Verlaine...

       96

         O general murmura:
         - Atlas...
         A tias prepara-se.  s receber a ordem. Liquidar
primeiro a
       Frufru e depois sair  na caa a Verlaine e Rimbaud. Por
um ins-
       tante a pracinha paira ... beira da tragdia. Finalmente,
o general
       recua.

         - Quieto.
         Rex  recuperado e levado para casa, arrastado. O
general
       tambm volta para casa mais cedo, descrente de tudo.
Atlas vai
       na frente. At chegar ... beira da calada ainda ter  que
agentar
       Frufru pulando nas suas patas.

       97

       O Manual sexual

         Os manuais de instruo sexual so quase to antigos
quan-
       to o sexo. Existiam em todas as culturas, desenhados em
papiro,
       gravados em pedra e at manuscritos, -nervosamente, por
frades
       da ordem medieval dos Safardanas, que durou pouco.
Quando
       Gutemberg inventou a prensa com tipo mvel instalou
logo uma
       segunda no poro para imprimir seus manuais. Da ndia
antiga
       nos vem o Karna Sutra. China e Japo sempre estiveram
adianta-
       dos no assunto e, enquanto no Ocidente recm tinham
sido des-
       cobertas quatro zonas ergenas (e uma, soube-se depois,
era en-
       gano), no Oriente eles j  conheciam todas as 177 e
partiam para o
       uso criativo do espantador de moscas (ver abaixo). Na
Idade M-
       dia o manual sexual mais conhecido era o do Chevalier
de Ia Cou-
       che Ensemble, com seu -Interessante captulo sobre o
que fazer
       com uma ereo dentro da annadura. Na It lia da
Renascena,
       Leonardo da Vinci fez circular privadamente um caderno
de es-
       boos para "instrumentos do prazer", sendo que um
deles, o insu-
       fiatori venerale, foi muito importante para o
desenvolvimento,
       anos mais tarde, do reator at"n-co. Os pases
escandinavos, a
       Ar bia e, mais recentemente, os Estados Unidos tambm
contri-

       98


       buram com manuais sexuais para o esclarecimento da
matria.
       Mas a verdade  que persiste a ignorncia da maioria
das pessoas
       sobre o sexo, a sua pr tica, os seus objetivos e a sua
importncia
       no mundo de hoje. No Brasil, principalmente, a
ignorncia  qua-
       se completa. No existem bons manuais sexuais
brasileiros. Os
       poucos que existem esto cheios de desinformao e
omisses.
       At pouco tempo ainda circulava uma edio portuguesa
das
       Tcnicas Amorosas de Fuas DAlentejo que, por um erro de
im-
       presso, nunca corrigido, identificava na explorao do
prprio
       umbigo com a ponta do nariz a forma mais satisfatria
de auto-
       erotismo. Uma epiderr-iia de problemas da coluna em
internatos
       brasileiros no comeo do sculo  atribuda ... grande
popularida-
       de desse manual, na poca. Os manuais modernos no so
muito
       melhores. Confundem mais do que esclarecem. So
excessiva-
       mente lcnicos, inacessveis ao leigo na matria, ou
ento apelam
       timidamente para o eufemismo e a linguagem figurada. E
no
       existe nenhuma razo para no se escrever claramente,
por exem-
       plo, o nome completo do membro masculino. Que, por
sinal -
       isto pgucos sabem -,  Rainieri Albatroz Filho, vulgo
"Batato".
         E para cobrir esta lacuna, sem duplo sentido, que
estamos
       lanando este novo manual de instruo sexual,
abrangendo tc-
       nicas antigas e descobertas recentes. Um manual srio,
claro,
       acessvel e completo para arrancar o brasileiro da sua
pr-histria
       sexual, livr -lo do know~how estrangeiro e lan -lo no
caminho
       das superpotncias. Com duplo sentido. Vamos l ,
portanto. De
       princpio, tire a roupa.
       PONTOS BSICOS

         O que  sexo? -  errado dizer---omeu sexo- ou "Eu
tenho
       um pipi, voc quer ver?" Voc no tem nada. Voc  o
seu sexo.
       Todo o seu corpo  um rgo sexual, com exceo,
talvez, das
       clavculas. Deixe dessa histria de o seu sexo l  e
voc aqui, por-
       tanto. Vocs esto nisto juntos, rapaz. No vale dizer
que voc
       no sabia de nada, que s est  ali como assistente e se
sente emba-
       raado com o que seu sexo, esse doido, est  fazendo.
Voc parti-
       cipa de tudo, nem que seja como acessrio. Repetindo:
voc  seu
       sexo. Sua parceira ou parceiro  o seu sexo oposto. Mas
existem
       certas  reas do seu corpo que so mais sexuais do que
outras. So
       as...

       99




         Zonas ergenas - Ao contr rio do que muitos pensam,
zo-
       na ergena no , por exemplo, a zona dos motis na
Barra da Ti-
       juca. So pontos do seu corpo onde o estmulo sexual 
maior do
       que em outros.O nmero normal de zonas ergenas num
corpo
       humano  177 - desde que, claro, se contem o cotovelo e
o vo
       atr s do joelho duas vezes e o rego entre os dedos do
p oito ve-
       zes. H  notcias recentes de que foram encontradas mais
duas zo-
       nas ergenas; por pesquisadores soviticos na Gergia,
mas ainda
       no h  confirmao. Comentou-se tambm que os
canadenses
       tm apenas 18 zonas ergenas e no usam nenhuma. Mas
no
       existe estatstica sria a respeito. Depois de uma
certa idade mui-
       tas zonas ergenas; so desativadas, ou passam a
funcionar em re-
       gime prec rio. Ou ainda passam para o dorrnio
pblio. As
       principais zonas er genas do corpo humano so os rgos
geni-
       tais (a palavra vem de Geni, deusa grega da
fertilidade) e eles de-
       vem manter essa liderana interzonal por muitos anos
ainda - se
       bem que fala-se com algum entusiasmo no futuro das
orelhas.
         Exerccio - Localize os seus rgos genitais.
Localize os r-
       gos genitais da sua parceira, ou parceiro. Agora
localize o maior
       nmero de zonas ergenas que puder, em 15 minutos, no
seu cor-
       po e no dela, ou dele. Decore-as. Se preferir marque-as
com um
       crculo usando pincel at"mico. Cuidado com as
concluses preci-
       pitadas. Uma moa angolana percorreu seu corpo inteiro
com a
       ponta do dedo e declarou que todos os pontos de seu
corpo lhe
       devam um imenso prazer. Descobriu-se mais tarde que a
ponta
       de seu dedo  que era ergena. Mantenha, mesmo nu, o
rigor
       cientfico.

       PRELINENARES

        O objetivo final do seu impulso sexual  fazer Aquilo
(do la-
       tim Aqulus, que quer dizer "Voc sabe..."). Mas isto
no signifi-
       ca que sexo seja s Aquilo e boa noite. Existe a
aproximao, o
       primeiro contato, os preparativos. A propsito, o
Babaorurri, li-
       vro hinclu da corte e dos mil caminhos para a
felicidade, conta
       uma par bola elucidativa. Shasta, um jovem de linhagem
nobre,
       dirigia-se para a cidade sagrada de Ramar quando
encontrou na
       estrada uma mulher de grande beleza que lhe ofereceu
tmaras,
       vinhos e um jarro com leo arom tico. Shasta ento
disse que

       100

       C..."

       no queria tmaras, nem vinho, nem leo arom tico, mas
queria
       a mulher, e j . A mulher quebrou o jarro na cabea de
Shasta.
         A aproximao pode ser de dois tipos:
         Direta - "Sinto-me atrado por voc e sei que, se for
pacien-
       te e mostrar que mereo sua confiana, em um ano,
talvez mais, a
       terei em meus braos. Acontece que tenho uma doena
incur vel

         Indireta - "Al"..."
        O primeiro contato pode ser um roar de dedos, um
esbar-
       ro aparentemente acidental, um guarda-chuva
compartilhado
       ou um aperto na n dega seguido de desculpas: 'Meu
Deus, con-
       fundi voc com uma antiga professora minha!" No seja
engraa-
       dinho. Jamais aponte para os seios que pendem cheios e
soltos
       sob a blusa dela e diga "Quer que eu carregue para
voc?" Evite as
       zonas ergenas no primeiro contato, mas no segundo
apalpe o
       seu antebrao ... procura da Ndoa de Afrodite.
Comprima-a su-
       gestivamente, depois de se certificar de que no existe
nenhum
       jarro por perto.
         Os preparativos so importantssimos. Ela topou,
vocs; es-
       to prontos, mas ainda no  a hora d'Aquilo.  preciso
criar am-
       biente. Os manuais hindus recomendam o incenso,
passeios no
       jardim e versos selecionados do poeta, mas os
americanos substi-
       turam por qualquer Sinatra de antes de 62 e flexo
abdominal.
       Dispam-se mutuamente, usando apenas os dentes. Cuidado
com
       o nariz no zper. Quando os dois estiverem nus e
estirados na ca-
       ma, morda o calcanhar dela e pea para ela aproveitar e
aparar as
       unhas do seu p.
         Os preparativos podem durar de poucos minutos a
algumas
       horas, cabendo a voc evitar que ela pegue no sono.
Voc pode
       percorrer todas as zonas ergenas do corpo dela (o
grand tour,
       que pode levar dias) ou fazer o circuito econ"mico,
parando ape-
       nas nos principais pontos de interesse.
         Terminadas as preliminares vocs esto prontos para
faze-
       rem Aquilo. Antes, no entanto, algumas palavras sobre o
instru-
       mental.

      O SEU EO DELA OU DELE

        O Rainieri, doravante chamado pnis (do latim penus,
"bas-
       to", "p ssaro rasteiro" ou ainda "Batato"),  um
msculo que

       101

       cresce nos momentos decisivos embora normalmente possa
pare-
       cer frouxo e sem vontade. Algo assim como o time do
Palmeiras.
       Ele  o seu principal instrumento de prazer. Trate-o
bem.
       Cumprimente-o todas as manhs, comente o seu bom
aspecto e
       use palavras de incentivo. Cuide da sua sade. Mas sem
chegar a
       exageros, como a touca de l, por exemplo. No se
preocupe com
       o seu tamanho. No  importante, a no ser que voc
comece a
       ouvir piadas da sua parceira, do tipo: "Estou vendo o
Toquinho.
       Cad o Vinicius?"
         A vagina (do snscrito uahalghan, ou "vagem
celestial")  o
       principal rgo sexual feminino. Seu ponto mais
sen!s~ivel  o clit-
       ris (do alemo antigo Clictauschauffenstraub, ou " a,
Hans, 
       a!"), que fica na entrada, como um guich. Da a
insistncia da
       sua parceira para que voc passe primeiro por ele antes
de entrar.

       AQUILO

         Chegou a hora.O grande momento.O congresso carnal,
       sesso conjunta das duas casas.O pnis est  pronto, s
esperando
       a deixa. Ou, no caso, o "Deixo". Todos os sistemas
funcionam.
       Voc j  passou no guich.  agora!
         No fique nervoso. Aja naturalmente. Entre
assobiando,
       como se isso acontecesse com voc todos os dias. Seu
objetivo 
       atingir o climax.  f cil identificar o clmax - do
francs ce cl-
       max" - porque ele vem acompanhado de movimentos
espasm-
       dicos e uma sensao, segundo um geopoltico
brasileiro, de que
        as porteiras'de ltaipu se abriram e estamos inundando
toda a Ar-
       gentina". Se houve movimentos espasmdicos sem a
sensao de
       prazer  sinal de que alguma coisa est  errada. Veja se
no ficou
       uma janela aberta ou se voc no introduziu o Rainieri,
sem que-
       rer, numa tomada.

       POSIES

         Pode-se praticar Aquilo em diversas posies alm da
cha-
       mada conservadora de centro. Consulte um advogado para
saber
       quais so as permitidas pelo Cdigo Penal brasileiro
sem risco de
       multa ou de priso. Eis algumas, adaptadas do Saka-n ,
n-lenar
       guia japons das artes do amor anticonvencional:

       102

       ,1

         A posio do ltus sobre o monte de aucenas; -O
homem
       senta sobre uma almofada e cruza as pernas na posio
do lotus.
       A mulher aproxima-se pela frente e senta nos seus
ombros.O ho-
       mem cai para tr s com um grito de dor. A mulher bate
com a ca-
       bea na parede.O sndico aparece para ver o que est
havendo.
         Bambual na ventania - A mulher verga-se para tr s en-
       quanto o homem corre em redor do leito com a velocidade
do
       vento.O homem p ra, senta na borda do leito e pede para
a mu-
       lher esperar um pouco que ele precisa recuperar o
f"lego. A mu-
       lher abandona sua posio e pede um cigarro.O homem
pergun-
       ta se ela ficou sentida. Ela no responde. Pela janela
entram os
       sons da vizinhana. Uma criana chora. Um co late.
Carros pas-
       sam no asfalto molhado. Algum cantarola um trecho do
Ad gio
       de A]binoni fora do tom.
         Os dois seixos nas  guas do Ishikari -O homem e a
mulher
       deitam-se lado a lado, de frente um para o outro. A
mulher pe a
       perna sobre o flanco do homem que pega o seu tornozelo
com
       fora. Ela coloca a cabea sob o queixo dele e empurra
para cima.
       Ele puxa os cabelos dela ao mesmo tempo que tenta
torcer a sua
       perna. Ela morde a orelha dele. Ele tenta alcanar o
nariz dela.
       Trocam socos. Depois fazem as pazes e amam-se
loucamente.
       Mas na sada ela ainda acerta um cotovelao na pleura
dele.
        O leo e a cora - A mulher fica de quatro sobre a
cama,
       lendo Querida.O homem aproxima-se por tr s, rosnando
baixi-
       nho. De repente, d  um grito ritual - "Arakatam !" - e
atira-se
       nas costas da mulher. A cama desaba. Vem o sndico
outra vez.

       ALGUNS PROBLEMAS

         Ejaculao precoce - Acontece. Voc mal saiu j
chegou.
       Chato. H  casos extremos em que voc est  levando a
moa para
       o apartamento e acontece no elevador, mas estes so
raros. A so-
       luo para a ejaculao precoce  pensar em outra coisa
durante
       Aquilo.O nosso balano de pagamentos, por exemplo. Ou
tenha
       sempre ... mo um exemplar do Di rio Oficial para ir
lendo en-
       quanto no cheg~ a hora do clmax.
         Frigidez - As vezes  difcil de detectar. Desconfie,
no en-
       tanto, se ela aparecer com um exemplar do Di rio
Oficial.

       103

       ACESSRIOS

         No Oriente foram desenvolvidos, durante os sculos,
224
       usos diferentes para o espantador de moscas. 225, se
voc contar
       espantar as moscas. No vamos dizer mais nada. Use a
sua imagi-
       nao.
         Evite usar eletrodomsticos na cama. Prefira raquetes
de t-
       nis, patinetes, plantas caseiras e queijo mole.O
acordeom est
       voltando. Muito em voga a boina catal.

       DIVERSOS

         Para terminar, as cinco expresses sexuais b sicas do
voca-
       bul rio mais corrente (assim ningum vai te pegar de
surpresa
       com uma delas):
         Sexo oral - Muito pr tico porque pode ser feito,
inclusive,
       atravs do telefone.
         Onanismo - Perverso sexual que consiste em somente
ter
       relaes com um fanho.
         Sodomia - Antigamente acreditava-se que a sodorr-iia
cau-
       sava terremotos. A crena foi abandonada quando
constataram
       que no Brasil no h  terremotos.
         Gomorria -O que as pessoas faziam em Gomorra, vizinha
       de Sodoma. Diz que era to bom que mesmo quando choveu
en-
       xofre eles no pararam.
         Sex- grupa - Uma espcie de segura em grupo.

       104

      O Dia da amante

         J  existe dia de quase tudo. Ou quase todos. Comeou
com
       o Dia das Mes. Um americano, cujo nome at hoje 
reverencia-
       do onde quer que diretores lojistas se renam, mas que
no mo-
       mento me escapa, foi o inventor do Dia das Mes. Fez
isso pen-
       sando na prpria me. Naquela mulher extraordin ria que
o car-
       regara no ventre durante nove meses sem cobrar um
tosto, que o
       amamentara, que o embalara em seu bero, costurara a
sua rou-
       pa, forara leo de rcino pela sua goela abaixo e uma
vez, quan-
       do o descobrira dando banho no cachorro no panelo de
sopa,
       quebrara uma colher de pau na sua cabea. Sim, aquela
mulher
       que se sacrificara por ele sem pedir nada de volta, mas
que agora
       exigia uma mesada maior porque estava perdendo demais
nos ca-
       valos. De nada adiantara o seu protesto.
         - No posso, mame. Os negcios no vo bem.
         - No interessa.
         - Ns s ganhamos dinheiro mesmo no Natal. No resto
do

       ano...

         E ento o rosto dele se iluminara. Tivera uma idia.
A me
       no entendeu e espalhou para os seus amigos no
hipdromo que

       105

       o filho finalmente perdera o juzo que tinha. Mas a
idia era bri-
       lhante. Ele a apresentou numa reunio de varejistas
naquele mes-
       mo dia.
         - Precisamos criar dois, trs, muitos Natais!
         - Espera a - disse algum. - Mas s houve um Jesus

       Cristo.

         - E os apstolos? So doze apstolos. Cada um tambm
       no tinha o seu anivers rio?
         - Mas ningum sabe o dia.
         - Melhor ainda. Inventaremos, todo ms, o anivers rio
de
       um apstolo. Teremos natais o ano inteiro!
         Mas a idia no agradou. Apstolo no tinha o apelo
de
       vendas de um Jesus Cristo. Mesmo assim, a idia de
criar outras
       datas para os fregueses se darem presentes era boa. Era
preciso
       motivar as pessoas. Era preciso forar as vendas. Era
preciso ga-
       nhar mais dinheiro. Nem que fosse para a me perder nos
cava-
       los.

           Aquela bruxa velha - murmurou ele.
          O que foi?
           Estava p~nsando na me,
           A me! E isso!
          O qu?
           A me!O Dia das Mes. Voc  um gnio!
         Foi um sucesso. Ningum podia chamar aquilo de
oportu-
       nsmo comercial, pois ser contra o Dia das Mes
equivaleria a ser
       contra a Me como instituio. Isto chocaria a todos,
principal-
       mente ...s mes. Que, como se sabe, formam ima irmandade
fe-
       chada com ramificaes internacionais. Como a M fia. As
mes
       tambm oferecem proteo e ameaam Os que se rebelam
contra
       elas com punies terrveis que vo da castrao
simblica ...
       chantagem sentimental. Pior que a M fia, que s joga as
pessoas
       no rio com um pouco de cimento em volta.

       o

        O Dia dos Pais tambm nasceu nos Estados Unidos, mas
       custou a aparecer devido ao puritanismo que,
sabidamente, in-
       fluenciou a histria americana durante anos. Foi s na
dcada de
       20 deste sculo que os americanos estabeleceram uma
relao en-
       tre o ato sexual e a procriao de filhos. At ento
julgava-se que

       106



       as mes geravam os filhos sozinhos e que o sexo, como a
bebida e
       um joguinho de cartas, era apenas uma coisa que os
homens gos-
       tavam de fazer aos s bados. Instituda a proibio do
sexo em to-

       do o territrio nacional - a chamada Lei Neca, uma
corol ria da
       Lei Seca -, notou.-se uma acentuada queda no nmero de
nasci-
       mentos. Concluiu-se ento que o homem era importante. A
nova
       importncia atribuda ao homem foi veementemente
combatida
       pelas mulheres da poca e at hoje existem bolses de
resistncia.
       Muitas mulheres consideram os homens perfeitamente
dispens -
       veis no mundo, a no ser naquelas profisses
reconhecidamente
       masculinas, como as de costureiro, cozinheiro,
cabeleireiro, de-
       corador de interiores e estivador. Estabelecido o papel
essencial
       do homem na constituio da farrilia, no entanto, no
tardou pa-
       ra que os varejistas lanassem o Dia dos Pais - tambm
chama-
       do, por alguns homens, de Dia do Papai Aqui e por
algumas mu-
       lheres, com um sorriso secreto, de Dia do Pai
Presumvel. Outro
       sucesso de vendas.

       o

         Dia da Secret ria- Este tambm teve uma origem
curiosa.
       Segundo algumas verses, ele comeou no Brasil, quando
uma
       mulher descobriu na agenda do marido a seguinte
inscrio: "Flo-
       res e bombons para a Bete. Mandar entregar no motel".
         - Quem  essa Bete? - perguntou a mulher com fingido
       desinteresse, sacudindo o marido pelo pescoo.
         - Ora, quem  a Bete.  a Dona Elizabete, minha
secret ria.
       Voc conhece ela!
         - Conheo e sei que o anivers rio dela j  passou. Por
que as
       flores e os bombons?
         - Onde  que voc viu isso?
         - Na sua agenda.
         - E voc viu a data na agenda?
         - ) que  que tem a data?
         - E o Dia da Secret ria.
         - Nunca ouvi falar.
         - Foi recm-inventado - disse o marido, que tinha
inven-
       tado naquele minuto.
         - E o motel? Por que entregar no motel?
         - A dona Elizabete est  morando no motel, provisoria-
       mente, at que terrninem os reparos na sua casa.

       107

       fantes.

       -O que houve com a casa dela?
       - Voc no soube? Foi arrasada por uma manada de ele-

       - Voc espera que eu acredite nisso?!
    - Meu bem, eu inventaria uma histria destas?
        , acho que no. Desculpe, querido.
        Est  desculpada. Agora largue o meu pescoo.

         Por que no um Dia dos Amantes? j  existe o Dia dos
Na-
       morados e hoje em dia a diferena entre namorado e
amante
       tornou-se um pouco vaga. Quando  que namorados se
transfor-
       mam em amantes? Segundo uma moa, experimentada na
ques-
       to, que consultamos, se a mulher der para o mesmo
homem
       mais de dezessete vezes seguidas ele deixa de ser seu
namorado e,
       tecnicamente, passa a ser seu amante. Os critrios
variam, no en-
       tanto. Em certas regies, s depois de dormirem juntos
dois anos
        que namorados se tornam legalmente amantes. Alguns
estabe-
       lecem um meio-termo razo vel: dezessete vezes ou dois
anos, o
       que vier primeiro. Outros afin-riam que a diferena
est  no grau
       de intimidade dos dois tipos de relacionamento. Num
caso, as
       pessoas vo para qualquer lugar onde haja camas -
apartamen-
       to, hotel, ou motel, sendo desaconselh veis hospitais,
quartis e
       lojas de mveis -, tiram a roupa um do outro, ...s vezes
usapdo
       s os dentes, atiram-se na cama, rolam de um lado para
o outro,
       enfiam-se os dedos no orifcio que estiver por perto,
lambem~se,
       chupam-se, com ou sem canudinho, massageiam-se
mutuamente
       com Chantibom, depois o homem penetra o corpo da mulher
       com o seu rgo entumescido e os dois corpos movem-se
em sin-
       cronia at o orgasmo simultneo entre gritos e
arranhes. Ento
       se separam, suados, e vo tomar um banho juntos antes
de sarem
       para a rua. Quer dizer, uma coisa superficial e
corriqueira. J  o
       namoro, no. No namoro, no apenas o rgo entumescido
mas
       todo o corpo do namorado penetra na prpria casa da
namorada
       todas as quartas~feiras. Eles se sentam lado a lado num
sof  quen-
       te, coxa a coxa, e chegam a entrelaar os dedos das
mos. Muitas
       vezes comem a ambrosia preparada pela me da moa com a
       mesma colher, gemendo baixinho. Existe ainda o prazer
indes-
       critvel de roar com o brao o lado do seio da
namorada, en-
       quanto se conversa sobre futebol com o pai dela, um
prazer que

       108

       aumenta se, por sorte, estiver com um daqueles sutis
pontudos
       usados pela ltima vez no Ocidente por Terry Moore, em
1953. A
       namorada, no o pai dela. Isto  que  intimidade.
         Existem outros critrios para diferenciar namorado de
       amante. Amante  o namorado que leva pijama, por
exemplo.
       Uma maneira certa de saber que o namorado j   amante 
quan-
       do, pela primeira vez, em vez de dar um par de meias
para ele no
       Dia dos Namorados, ela d  um par de cuecas. E voc ter
certeza
       de que ele  amante quando algum sugerir que ela lhe
d um cer-
       to tipo de cuecas e ela responder, distraidamente:
"Esse tipo ele j
       tem..."

         Mas estamos falando de namorados, ou amantes,
solteiros.
       No caso do homem casado e com uma amante a coisa se
torna
       mais complicada e pouco invej vel. No caso do homem
casado e
       com v rias amantes, se torna mais complicada ainda e
mais inve-
       j vel. Antes de lanar o Dia dos Amantes os lojistas
teriam que fa-
       zer uma pesquisa de mercado.O que despertaria a
desconfiana
       dos entrevistados.
         -O Senhor tem amante?
         - Foi a minha mulher que o mandou?
         - Estamos fazendo uma pesquisa de mercado e...
         - Onde  que est  o microfone?  chantagem, ?
         - No, cavalheiro. Ns...
         - Est  bem, est  bem. Tem uma moa que eu vejo. Mas
       nem se pode chamar de amante. Pelo amor de Deus!  s
meia
       hora de trs em trs dias. E ela  bem baixinha.
"Amante" seria um
       exagero. Mas eu prometo parar!
         Uma vez decidido o lanamento do Dia dos Amantes as
       agencias de propaganda teriam que escolher a estratgia
de mar-
       keting, ou, como se diz em portugus, o approach.
        O tom das peas publicit rias variariam,  claro, de
acordo
       com o tipo de comrcio. As lojas de eletrodomsticos
poderiam
       anunciar: "Tudo para o seu segundo lar". Ou ento:
"Faa-a se
       sentir como a legtima. D a ela uma m quina de lavar
roupa". As
       joalherias enfatizariam sutilmente o esprito de
revanchismo do
       seu pblico-alvo, sugerindo: "Aquele diamante que sua
mulher
       vive pedindo... d para a sua amante". Ou,
pateticamente: "j
       que ela no pode ter uma aliana, d um anel..."
Perfume: "Para
       que voc nunca confunda as duas, d Furor s para a
outra..."

       109

       Utilidades: "No dia dos amantes, d a ela um
despertador. Assim
       voc nunca se arriscar  a chegar tarde em casa".
         Os comerciais para a televiso poderiam explorar
alguns lu-
       gares-comuns. Por exemplo: homem entra no quarto e
encontra
       amante na cama. Atira um presente no seu colo. Isso a
faz se lem-
       brar de uma coisa. Ela abre a gaveta da mesa de
cabeceira e tira
       um presente tambm. Ele vai pegar, mas o presente no 
pra ele.
       Ela levanta da cama, abre o arm rio e d  o presente
para o seu
       amante escondido l  dentro. Congela a imagem. Sobrepe
logo-
       tipo do anunciante e a frase: "Neste Dia dos Amantes,
d uma
       surpresa". Hein? Hein? Est  bem, era s um exemplo.

         As confuses seriam inevit veis. Marido e mulher se
encon-
       tram numa loja de lngerie. Espanto da mulher:
         - Voc aqui?
         Marido:
         - Ahm, hum, hmmm, sim, ohm, ahm, ram.
         - E escolhendo uma camisola!
            que, ram, rom, ham, ahm, grum. Certo. Quer
dizer...
           Voc pode me explicar o que est  havendo?
           Grem, grum rahm, rohm, ahn...
           No vai me dizer que estava comprando pra mim. H
       anos que no uso camisola. Ainda mais desse tipo,
preta, trans-
       parente e com decote at o umbigo.
         - Eu posso explicar.
         - Ento explique.
         - Ahm, rom, rum, rahmi, grums.
         - Explique melhor.
         - Est  bem!  para mim, est  entendendo agora? Para

       mim!

         - Voc? Mas...
         - H  anos que eu tento esconderisto de voc. Agora
voc
       me pegou e eu vou revelar tudo. Adoro dorri-tir de
renda preta! S
       me controlei at hoje por causa das crianas!
         Ela compreende. Tenta acalm -lo. Mas ele agora est
agita-
       do. Bate no balco e grita:
         - Tambm quero ligas vermelhas, um chapelo e
chinelos
       de pomporn gren !
         Ela o leva para casa, cheia de resignada compreenso.
A
       amante ficar  sem o seu presente do Dia das Amantes mas
pelo

       110

       menos o marido ter  evitado qualquer suspeita.O nico
inconve-
       niente  que ter  de dormir de camisola preta pelo
resto da sua vi-
       da conjugal.

         Por que no um Dia dos Amantes? Voc teria que tomar
       certas precaues" alm de jamais entrar numa loja de
fingerie.
       Como uma ausencia sua em casa no Dia dos Amantes
despertaria
       desconfiana, telefone para casa antes de ir festejar
com a aman-
       te.

          - AI, a patroa est ?
          - No, senhor.
         - Estranho. Ela costuma estar em casa a esta hora.
Mas 
       melhor assim. - Diga para ela que eu vou me atrasar um
pouco.
       Estou no hospital para curativos. Nada grave. Fui
atropelado por
       uma manada de elefantes.
         - Sim, Senhor.
         Voc se dirige para a casa da amante, com o embrulho
do
       presente embaixo do brao. Comea a pensar na ausncia
da sua
       mulher em casa. Onde ela teria ido? Lembra-se ento de
que a viu
       mais de uma vez olhando com interesse uma vitrine cheia
de ca-
       chimbos. Na certa pensando num presente para lhe dar. E
sbito
       voc p ra na calada como se tivesse batido num
elefante. Voc
       no fuma cachimbo!

       cia...

       1   cho.

       Eu desde pequeno tenho este problema de incontinn-

       - Incontinncia?
       - Eu ainda fao xixi na cama...
       Nisso o analista pulou e gritou:
       - Meu pelego!
       E levantou o div por uma ponta, despejando o paciente
no

       o

         Outra vez entrou um senhor no consultrio, deitou no
div
       e contou que ultimamente estava se comportando de modo
estra-
       nho.

       baixo...

       do o div.

                                 ...
       Outra do analista de Bag " ~

       - Se abanque, no m s - disse o analista de Bag,
indican-

         - Eu, ahn, prefiro ficar de p - disse o moo.
         - Se abanque, ndio velho, que t  includo no preo.
         - No, obrigado...
         - Deita a! - disse o analista de Bag, empurrando o
pa-
       ciente, que caiu de costas no pelego.
        O analista de Bag sentou na sua banqueta e comeou a
pi-
       car fumo para o palheiro. Como o moo no dissesse
nada, falou:
         - E ento? Desembucha.
         -  que eu tenho um probleminha...
         - Probleminha s pode ser o moleque pequeno.
         - "Moleque?"
         - A pea.O trabuco.O Oduvaldo.
         - Ah. No, no  isso.
         - Ento o que , tch? Depressa que eu t" com a
salinha
       cheia de louco.
         - Bem,  que eu...
         -O qu?
       112

         - Me aposentei, doutor. E um dia, no sei por que, me
deu
       vontade de pintar o cabelo de caju.
         - Sei - disse o analista de Bag, sem tirar a bomba
de chi-
       marro da boca.
         - Comecei a usar roupas assim. Camisa aberta at aqui
em-

            T" ouvindo.
            Medalho no peito
            Pensei que fosse devoo.
            E me deu esta vontade de s andar com rapazes
            Sim.
            Me diga, doutor. Eu sou homossexual?
            No existe gacho homossexual.
            Mas a gente v tantos por a
            So as correntes migratrias. Tu no tem nada,
ndio ve-
       lho. Precisa  arranjar um passatempo. Colecionar selo.
Ou me-
       dalho, pra no perder os que j  tem. Vai pra casa e
sossega, tch!
         - Se eu fosse homossexual, nem sei o que fazia. Acho
que
       me jogava por essa janela!
         Ai o analista de Bag tapou a janela com o corpo e
ameaou:
         - Te fresqueia. Te fresqueia!

       113


       P"quer intermin vel (19)

         Cinco jogadores em volta de uma mesa de p"quer. A
fuma-
       a  de trs semanas. Batem na porta.
         Jogador 1 - Vai abrir a porta, 6 mulheri
         Jogador2 - Espera a. Voc est  gritando com a minha
mu-
       lher. Quer sair no brao?
         Todos - Ningum sai. Ningum sai.
         Jogador2 - Com a minha mulher, grito eu. Vai abrir a
por-
       ta, 6 mulheri
         (Quem chega  uma senhora que se dirige a um dos
jogado-

       res.)

         Senhora - Vitinho...
         Jogador 3 - Mame...
         Senhora - H  trs semanas que voc no sai dessa
mesa,
       Vitinhol
         Jogador 1 - Ningum sai.
         Os outros - Ningum sai. Ningum sai.
         Senhora - Eu trouxe uma camisa pra voc trocar...
         Jogador 4 - Epa. Examina a camisa.O golpe da me 
co-
       nhecido. j  vi me trazer camisa com seqncia fechada.

       116

         (Vitinho veste a camisa depois de mostrar que no tem
nada
       escondido.O jogador 5 se levanta.)
       Jogador 1 - Ningum sai!

       letes.

       Os outros - Ningum sai. Ningum sai.
       Jogador 5 Mas eu vou ao banheiro.
       Jogador 1 Outra vez?
       Jogador 5 - A ltima vez que eu fui faz dois dias!
       Jogador 1 - Pois ento. Ningum sai.
       Os outros - Ningum sai. Ningum sai.
       Senhora - Vitinho, eu tambm trouxe um bolo.
       Jogador 1 - Epa.
       Os outros - Epa. Epa.
       Jogador2 - j  vi muito bolo de me com recheio de trs
va-

       (Abrem o bolo para examinar.)
       Senhora - Quando  que voc vai sair desse jogo, Vitor?
       Jogador 1 - Ningum sai. S sai a me.
       Os outros - Ningum sai. Ningum sai.
       Jogador 2 - Vamos jogar. De quanto  o bolo?

       Jogador 4 - No d  pra ver. Tem pedao de bolo em cima.
       Jogador 1 - Agora essa. Tem bolo no bolo. Vocs; esto
me
       saindo...
       Os outros - Ningum sai. Ningum sai.

       117

       P"quer intemiffi vel (HI)

       1

          Cinco homens em volta de uma mesa de p"quer. No se
en-
       xerga quase nada atravs da fumaa de um ms.
          jogador 1 - Espera um pouquinho. Cad meu sanduche?
          Jogador 2 - Voc no tinha jogado o sanduche?
          Jogador 1 - E sanduche  ficha?
          Jogador 2 - Estava no meio da mesa e eu peguei.
          Jogador 3 - Esperem. Quem ganhou a ltima mesa fui
eu.
      O sanduche  meu.
          Jogador 4 - Desse jeito ns vamos ficar aqui a vida
inteira.
          Jogador 3 - A vida inteira eu no posso.
          Jogador 2 - S por que voc est  ganhando?
          Jogador 3 - Em 82 vai ter a Copa do Mundo na
televiso e
       eu vou ver.

       go.

       Jogador 1 - Ningum vai.
       Os outros - Ningum vai. Ningum vai.
       (Toca o telefone.O Jogador 3 vai atender. Volta.)
       Jogador 2 - Quem era?
       Jogador 3 - Minha mulher. Nossa casa est  prendendo fo-

       118

       1

          Jogador 1 - Ningum sai.
          Os outros - Ningum sai. Ningum sai.
          (Entra uma mulher na sala. Dirige-se a um dos
jogadores.)
          Mulher - Preciso de dinheiro.
          Todos (Tapando as fichas) - Ningum d . Ningum d .
          Jogador 1 - Quem  que deixou essa mulher entrar?
          Mulher - Como, quem  que deixou entrar? Eu moro
aqui.
          A casa  minha. Se algum tem que sair, so vocs.
          Jogador 1 - Ningum sai.
          Os outros - Ningum sai. Ningum sai.
          Jogador 3 -O que  isso?
          Jogador 2 -  a porta. Eu vou abrir.
          Jogadorl - Epa.
          Os outros - Epa. Epa.
          Jogador 1 - Eu conheo o golpe da porta. Vai abrir
com um
       par de nove e volta com um four de damas. Deixa as
cartas.
          (O Jogador 2 vai abrir a porta. Volta cercado por
trs ho-
       mens.)
          Jogador 2 -  a polcia.
          Jogador 1 - Bota o seis no baralho que vo entrar
mais trs.
          Jogador 3 - No  melhor sair algum?
          Jogador 1 - Ningum sai.
          Os outros - Ningum sai. Ningum sai.

       119

       Decadncia

         A decadncia  o caminho natural de todas as coisas.
Tudo
       tem o seu apogeu e depois o declnio. As plantas
brotam, cres-
       cem, florescem e morrem. Em algumas espcies, a
decadncia 
       mais dolorosa do que em outras. E o caso das plantas
carnvoras,
       por exemplo, que no fim da vida s conseguem se animar
diante
       de um prato de mingau. At os mecanismos cansam e
decaem. 
       conhecida a histria do famoso relgio municipal de
Bong, na Ba-
       viera, durante muitos anos considerado uma das
maravilhas do
       engenho humano. Situado na praa central da cidade, o
relgio
       tem um imenso mostrador com ponteiros de ferro
trabalhado.
       Embaixo do mostrador h  duas portas. De hora em hora
uma das
       portas se abria e aparecia a rplica perfeita de uma
camponesa,
       em tamanho natural, com um balde na mo. Pela outra
porta
       saa a rplica perfeita de uma vaca. Quando a vaca e a
camponesa
       se encontravam, a camponesa inclinava-se para ordenhar
a vaca.
       Neste instante, pela mesma porta da qual sara a vaca,
aparecia
       um campons que se aproximava da camponesa por tr s e
lhe da-
       va um belisco. Com o susto, a camponesa dava um puxo
mais
       violento no ubre da vaca, que dava um chute para tr s,
acertando

       120

       um sino, que assim anunciava a hora. juntava gente na
praa e as
       pessoas vinham de longe s para ver o relgio de Bong.O
meca-
       nismo foi se desgastando com o tempo, no entanto, e
hoje se tor-
       nou imprevisvel. As vezes uma das portas no abre e a
campone-
       sa no aparece. A vaca sai e, um pouco depois, sai o
campons.O
       campons d  um belisco na vaca, que chuta para tr s e
erra o si-
       no. Um funcion rio da Prefeitura, de sobreaviso, sai e
bate no si-
       no, tendo que se cuidar para no levar um belisco do
campons.
       s vezes s aparece a camponesa, que se inclina e fica
ordenhan-
       do o ar.O funcion rio ento tem que sair, bater no
sino, colocar a
       camponesa de volta na posio vertical e depois
empurr -la para
       dentro. J  aconteceu de a vaca sair de surpresa, pegar
o funcion -
       rio por tr s e quase faz-lo voar. Outra vez foi o
campons que
       saiu depressa demais, desprendeu-se do cho, voou por
cima da
       camponesa e da vaca e entrou pela janela da Prefeitura
no outro
       lado da praa, interrompendo uma sesso de conselho
municipal.
      O resultado  que, dois minutos antes de cada hora, toca
uma si-
       rene em Bong anunciando que o mecanismo do relgio vai
ser
       acionado e que todos devem sair da praa e procurar
abrigo, pois
       a qualquer momento a vaca tambm pode voar, com
conseqn-
       cias tr gicas.
         Os seres humanos tambm decaem. Todos ns envelhece-
       mos e no somos mais o que ramos-em outros tempos, ou
mes-
       mo na semana passada.O homem que comia fogo est
mastigan-
       do fsforo.O Homem Montanha hoje  o Homem Elevao.
As-
       sim  a vida. Mas h  casos especialmente pungentes.  o
caso do
       Grande Tarado.
        O Grande Tarado tornou-se uma legenda em vida depois
       que atacou sete funcion rias pblicas dentro do
elevador de uma
       repartio estadual antes de chegar ao quarto andar, e
uma de ca-
       da vez. As prprias vtimas tiveram que reconhecer:
'Que tara-
       do!"
         No seu melhor perodo - dez incompar veis anos nos
quais
       raramente saiu das manchetes dos jornais - o Grande
Tarado
       bateu recorde sobre recorde. Foi o Tarado do Ano no
pas em no-
       ve destes 10 anos e s perdeu em 71 porque disputou,
simultanea-
       mente, a Copa Libido da Amrica e no teve condies
fsicas pa-
       ra chegar ...s finais. Mas recuperou-se e no ano seguinte
venceu as
       duas competies.

       121

         Em 1974 o Grande Tarado participou do Congresso
Interna-
       cional de Tarados em Dusseldorf, Alemanha, onde
apresentou
       sua tese sobre Fetichismo e Bestialismo Sado-Masoquista
numa
       Sociedade em Via de Industrializao, um Caso Pessoal.
Foi
       aplaudidssimo. Sua tese saiu publicada no Nouvelle
Voyeur da
       Frana.
        O Grande Tarado visitou todas as grandes capitais,
dando
       demonstraes pblicas e respondendo a incont veis
entrevistas,
       em delegacias de polcia. Recusando convites para se
estabelecer
       na Europa, o Grande Tarado voltou para a sua terra. Na
chega-
       da, com algum esprito, explicou aos reprteres a sua
deciso de
       voltar:
         - A experincia me ensinou que  melhor ser
exibicionista
       num clima quente.
         Naquele mesmo ano respondeu a 17 processos por
atentado
       ao pudor e assalto ao decoro pblico, um novo recorde
mundial.
       Passou a s atender com hora marcada. Aumentou o cach.
         De repente, o Grande Tarado desapareceu. Simplesmente
       saiu de circulao. Desocupou seu consultrio. Seu
telefone foi
       desligado por falta de pagamento. No era mais visto
nos lugares
       de sempre. Ningum sabia o que lhe tinha acontecido. E
comea-
       ram a surgir histrias da sua decadncia.
         Tentara exibir-se na sada de um colgio de freiras e
fora
       vaiado pelas alunas.
         Tinha sido visto em boa companhia.
         Estava acabado.
         Finalmente, h  algumas semanas, ele voltou ao
notici rio
       dos jornais. Melancolicamente. Saiu a notcia da sua
priso e uma
       foto. Mas ningum reconheceu naquela figura pattica o
outrora
       Grande Tarado. De fracasso em fracasso, chegara ao
m ximo da
       desmoralizao.
         Fora preso no poro de uma agncia dos Correios,
tentando
       violar uma correspondncia.

       122

       Posto 5

         Cena acri-doce de praia.
         Alzira, 43 anos, funcion ria pblica graduada, bonita
mes-
       mo se no tivesse feito a pl stica, divorciada, uma
filha que mora
       com o pai, Posto 5, domingo de manh, avista, vindo na
sua dire-
       o entre os guarda-sis e os argentinos, Rogrio, de
22 anos. Seu
       corao pula no peito como se tivesse 19. Ela procura
seus cigar-
       ros dentro da grande bolsa de praia - loo, leno de
papel, o JB,
       meu Deus, ele est  chegando perto! - para disfarar seu
alvoro-
       o. Rogrio p ra entre ela e o mar e diz, meu Deus:
         - Oi, Alzira.
         Ela ainda no decidiu o que fazer, que cara usar, o
que dizer.

       Seis meses e ele diz "Oi". Ela devia mand -lo passear.
Virar a cara.
       Cham -lo de cafajeste e mal agradecido. Tudo menos
aquela
       vontade de abraar as suas pernas e receb-lo de volta.
         - Como vai, Rogrio?
         - Legal, e voc? T  boazinha?
         Ele agacha-se ao seu lado. Ela intensifica a busca
dos cigar-
       ros. Calma, Alzira. Lembre-se do que voc jurou. Nunca
mais.
       Mesmo se ele voltasse de joelhos. Ele pe um joelho no
cho. To-
       ca o cabelo dela com a ponta dos dedos.

       123

         - Voc parece tima.
         - Eu estou tima.
         - Ento, timo.
         - E voc?
         - Vai-se levando.
         - Voc tem um cigarro? Eu no encontro os...
           Voc est  fumando de novo?
         Por sua causa, cafajeste. Cigarro, valium e
desespero. S
       no me matei por causa da minha filha.
         - Fumo pouco.
         - Corta essa.
         - Voc no veio aqui para me dizer isso, foi?
         - Voc est  magoada comigo.
         - Por que magoada? S o que voc fez foi me deixar um
       dia, sem qualquer explicao, sem um telefonema, sem...
Acon-
       tece todos os dias.
         - No tinha o que explicar.
         - Esperei dois meses e dei as suas cuecas para o
porteiro.
         - Alzira...
         Aquele sorriso. Calma, Alzira. Frieza. No pea
compai-
       xo. No pea nada. Se ele quiser voltar, imponha
condies.
       Voc est  indo bem, Alzira. Ele se deu conta do que
perdeu. No
       diga nada. Deixe ele falar. Ele est  falando.
         - Voc  uma pessoa muito importante pra mim.
         - Sou?
         - Nunca conheci ningum como voc.
         - Sei.
         - Verdade. Acho que com voc, sei l . Eu me
transformei
       com voc. Fiquei mais maduro. Foi um negcio inuito
srio. Pro-
       fundo...
          o seu triunfo, Alzira. Saboreie.
         - Acho que o que houve entre ns dois foi profundo
de-
       mais para ser destruido. Entende? Eu estava errado. No
devia ter
       dado no p como dei.
         - Acontece.
         - No seja assim, Alzira.
         - Assim, como?
         - Voc ficou magoada.
         - No fiquei. Foi bom e acabou. Pronto.

       124

         Agora ele vai dizer que no acabou. Que no precisa
acabar.
       Ele est  com os dois joelhos na areia. Ele vai
implorar, Alzira. Ele
       diz:

         - Tem uma pessoa que eu quero que voc conhea.
         Alzira, Alzira...
         - Quem ?
         - Ela esta comigo. Posso trazer aqui?
         - Traz, ora.

         Ele ergue-se e corre para a beira do mar. So onze
horas. A]-
       zira pensa em correr tambm. Para casa. Dar no p. Est
tonta.
       Procura os culos escuros no bolso. Encontra os
cigarros mas
       no encontra os culos, Rogrio est  voltando. Traz uma
moa
       pela mo. Dezoito anos.
         - Alzira, Silvia. Silvia, Alzira.
         - a, Silvia.
         - Como vai a senhora?
         - A Silvia  minha noiva, Alzira.
         - Opa. Noiva?
         - Eu queria que voc conhecesse.
         - Ela  muito bonita.
         - A Alzira  uma pessoa...
         Ele vai dizer que voc  quase uma me para ele,
Alzira. Ele
       tocou o seu cabelo com a ponta dos dedos, Alzira.
           ... uma pessoa que eu respeito muito. A opinio
dela.
           Pois a minha opinio  que a Silvia  um doce.
Parabns.
           Muito obrigada.
           Obrigado, hein Alzira?
           Obrigado por qu?
           Portudo.
          O que  isso, meu filho?
         Depois que eles se afastam, Alzira abre sua bolsa de
praia
       com firmeza. Primeiro, precisa encontrar os culos
escuros. De-
       pois pegar um leno de papel para assoar o nariz, que a
vida  as-
       sim mesmo.

       125

       Entrevista com o analista de Bag

         Coojornal - Qual  a sua escola? Segue os
ensinamentos de
       Freud, Jung, Reich ou Honrio Lemes?
         Analista de Bag - Pues, sou freudiano de carregar
bandei-
       rinha. Mas no desprezo os dem s. No meu consultrio
tenho
       uma guampa esculpida com as cara de Aciler e Jung. A
Dona Me-
       lanie Klein tambm, era china de se apresentar pra me.
Coisa
       mui especial. J  esse tal de Reich, nem pra cat  bosta.
Rech, pra
       mim,  prenncio de cuspida.
         Coojornal - Qual a importncia do barranco na
formao
       do psiquismo do gacho?
         AB -  importante barbaridade. L  na fronteira se diz
que
       nem toda mulher  vaca mas toda vaca  mulher. Quando
me
       vem paciente com histrias que o stress no deixa ele
trepar, ou a
       mulher  dominadora ou ele acha sexo mais nojento que
mocot
       de ontem ' , eu diagnostico na paleta: "Esse no
barranqueou".
       No h  coisa mais linda que uma barranqueada a cu
aberto. De-
       senvolve o membro e o amor ... natureza. E se o vivente
me diz
       que na terra dele no tinha barranco, repico em cima:
"E no ti-
       nha formigueiro?" No tem desculpa. Quando eu era guri,
ia pro
       campo de banquinho.

       126

         Cooiornal - Se um paciente sonha freqentemente que
est
       correndo nu, com guirlandas de flores nos cabelos, as
faces rosa-
       das e um relatrio da Farsul debaixo do brao, qual  a
terapia in-
       dicada?
         AB -O sonho  f cil de interpretar.O ndio velho
obvia-
       mente se identifica com as classes produtoras gachas,
que no
       param de leva. Enquanto for s sonho est  especial. No
dia em
       que ele me aparecer assim no consultrio dou-lhe um
tranco de
       vir  cadeira.
         Coojornal - Ouve-se dizer que o senhor no cobra suas
       consultas em dinheiro. Prefere uma porquita no
esplendor da
       adolescncia, uma ovelhita buena de retoo ou at mesmo
uma
       galinhazita experimentada.  verdade?
         AB - j  vi que o amigo tem vocao de fresteiro, pos
t  ba-
       bando no meu tapete malhado. J  se viu? Recebo
pagamento em
       espcie, inclusive animal. Mas no costumo me envolver
emocio-
       nalmente com meus honor rios.  verdade que uma ocasio
um
       latifundi rio esquizofrnico de Dom Pedrito - era
metade PP,
       metade PDS e ainda tinha uma partezita PDT que atiava
as ou-
       tras duas - me pagou a consulta com uma gua castanha
buena-
       cha. Cosa pra no fazer feio em exposio ou no Motel
lpanerna.
       Quase no resisti mas finalmente me segurei nas
bombachas.
       Mesmo porque a Hortncia no compreenderia.
         Coojornal - A Hortnsia  a sua senhora?
         AB - No. A Hortnsia  uma pata que mora comigo.
       Mais ciumenta que mulher de tenente.
         Coojornal - Qual sua reao diante de uma paciente
que
       chega cuspindo fumo nos seus pelegos, calando 44 bico
chato e
       dizendo que est  disputando posio na zaga central do
Gua-
       rany?
         AB - Desabot"o as braguetas e boto o Careca pra fora.
Se
       ela quer competio ento vamos ao que interessa, tch.
         Coojornal -O senhor tambm vai para a cama, digo,
para
       os pelegos, com suas pacientes?
         AB - Se o caso da moa me parece ser simplesmente
falta
       de bageense, vou. Mas tambm depende da china. Se
apetece, se
       tomou banho e outros eteceteras, pos fiz o juramento de
Hipcra-
       tes mas no sou hipcrita. E tem otra cosa. Como os
amigos sa-
       bem, hora de psicanalista tem 50 minutos e 50 minutos
nem sem-
       pre  o bastante para se chegar ao fundo da qesto.
Gacho com

       127
       ejaculao precoce  o que leva meia-hora. E,eu gosto
de fazer tu-
       do como manda o almanaque. Tiro at as ceroulas. Quem
trepa
       vestido  padre e tartaruga.
         Coojornal -  verdade que o analista-didata que o
prepa-
       rou foi o Paixo Cortes?
         AB - No.O Paixo no  analista e nem poderia ser. 
um
       ndio mui grosso. Este  negcio pra gente sensvel.
Empurra essa
       escarradeira pra c  que t  me subindo um daqueles de
assustar
       bulclogue. Reich! Slupt! Obrigado.
         Cooiornal - Qual sua explicao para o veadismo que
       campeia no Rio Grande?
         AB - No quero falar mal mas tem entrado muito
uruguaio
       ultimamente... E  preciso entender que gacho marica
sempre
       houve. Tem gacho a sem bigode e de costeleta curta
como estri-
       bo de ano que nem por isso  veado. Se bem que t  ALI.
Marica
        marica. Nem todo mundo corta unha com faco. Agora
esse
       negcio de hornossexualismo  frescura. Uma vez um
ndio velho
       que eu tava analisando disse que tinha se apaixonado
por mim. A
       tal de transferncia.O Freud disse que devia se deixar
sempre um
       revlver carregado ... mo para os casos extremos. E o
ndio velho
       era macho de trs culhes, tch. Seu perfume era
francs: o Mit-
       terrand depois do cuper. Disse que estava apaixonado
por mim.
       Eu disse "No t ". Ele disse "Tou". Eu disse "Te
fecha". Ele disse
       "Mas  verdade". Eu disse "Quer parar de falar e
prestar ateno
       na msica? Tu t  pisando nos meus ps". M um ms
depois ta-
       va curado.  verdade que insistiu em ficar com trs
cabelos do
       meu peito para guardar num livro do Vincius. Mas hoje
t  em-
       prenhando at china de delegado. No existe gacho
homosse-
       xual. Existe bageense que no deu certo.
         Coc,jornal - Dizem que a bomba de chimarro  um tal
de
       smbolo f lico.
         AB - Smbolo f lico  o cacete.
         Cooiornal -O Senhor j  descobriu a poro mulher do
       gacho?
         AB - J . Ela se chama Noemi. Todo gacho tem ego,
supe-
       rego, id e Noemi. Eu apresentei essa tese num congresso
no Mxi-
       co e fui vaiado, mas sustento. Inclusive, atravs da
an lise, j  pe-
       netrei no inconsciente de muito guasca grosso e fiz
contato com a
       Noemi. Uma vez, com o hipnotismo - fico balanando um
rabo

       128

       de terneiro na frente do paciente e dizendo -Dorme,
filho da
       mae. - consegui um guasca do Alegrete que estava quase
se
       perdendo.O causo era que a Noemi queria ir morar no
Baixo Le-
       blon e ir ... vernissage de sand lia e o vivente queria
ficar na fazen-
       da curando bicheira. Dei uns trancao na Noerni dele e
ela se
       aquietou., Nenhum gacho sai do Rio Grande do Sul por
vontade
       prpria. E sempre a Noerr que emigra e leva o pobre
junto.
         Cooiornal -O senhor fez seu curso em Paris, Viena,
Nova
       lorque ou Passo Fundo?
         AB - Em Paris, Viena e Nova lorque, com
especializao
       em Passo Fundo.
         Coojornal - Antes quem tinha leno branco no pescoo
ia
       prum lado e os de encarnado pro outro, mas * agora a
gauchada t
       praticando a tal de amizade colorida. Que mudana foi
essa?
         AB - Coisas da Noemi.
         Coojornal - Por falar no assunto, o senhor  maragato
ou
       chimango?
         AB - Maragato, Guarani, Internacional, Iolanda
Pereira,
       Joo XXIII, sal grosso em vez de salmoura, tango,
mulher ?ncu-
       da, pinga ardida, fumo de rama, filme de pirata e no
sei caga sem
       ler o Correio.
         Coojornal - E o tal de feminismo, que tal.lhe parece?
         AB - Pos sou a favor. Acho que toda mulher deve lutar
pe-
       la sua igualdade, desde que no interfira com o servio
da casa.
       Depois de pendurar as roupas ela pode fazer o que bem
entender.
         Cooiomal - Falam da existncia de uma nova mulher,
uma
       nova moral, o tal de "novo pacto afetivo".O que  que o
senhor
       acha?
         AB - Uma vez veio um casal me consultar e trouxeram
       uma amiga junto. A moa era que nem casa de esquina,
dava
       pros dois lado. J  fiquei aqui, massageando meu fumo e
cuidando
       a trinca. Os trs se acomodaram no div e empearam a
charlar.
       Bandalheira vai, bandalheira vem descobri que estavam
com um
       problema. A tal de avulsa conhecera um sargento da
brigada, Sa-
       lustiano, vulgo Barril, e queria levar o bicho pra
morar com os
       trs porque ele era autntico, entende? Os outros
ficaram com
       cimes mas logo se deram conta que cimes era uma
recada bur-
       guesa e careta e estavam confusos.O que  que achava?
Virei o
       div  com um pontap e corri com os trs a tapa. Sou a
favor de
       uma nova moral mas poca vergonha, no!

       129

         Coojor---rial - E a tal de maconha?O senhor aprova a
sua li-
       berao?
         AB - Aprovo, porque no hai como controlar. Ouvi
falar
       que tem gente alimentando boi com cogumelo alucingeno
e de-
       pois fumando a bosta seca.  como dizem na minha terra:
pra
       besteira e financiamento do Banco do Brasil, sempre se
arranja
       um jeito.
         Coojomal - j  se sabe que existe uma revoluo de
costu-
       mes. Ela s atinge a classe mdia ou o proletariado
tambm en-
       trou nesse rebolio?
         AB - Pela minha clientela do INAMPS posso dizer que a
       peonada tambm foi atingida nos seus costumes.O costume
de
       comer, por exemplo.
         Coojornal - E a tcnica do joelhao, como foi
descoberta?
         AB -- Aprendi com um mdico dos meus tempos de pi .
       Quando a gente dizia que tava com dor de ouvido ele
dava um
       belisco no brao at a gente gritar: "T" com saudade
da dor de
       ouvido!" Tambm apresentei a tese do joelhao num
congresso
       de psiquiatria. Os bundinhas quase desmaiaram. Sou um
pionei-
       ro na sua aplicao na psican lise.
         Coojornal -O Imprio dos Se"tidos bateu todos os
recor-
       des de permanncia em cartaz aqui em Porto Alegre. Ser
que a
       gauchada j  perdeu a vergonha?
         AB - Fui ver o Imprio dos Sentidos. Sentou uma
piguan-
       cha do meu lado e no meio do filme ns est vamos num
roado
       lindo no m s. Na sada eu perguntei se ela no queria
continuar o
       filme l  em casa. Ela disse -Querer eu quero, mas onde
 que a
       gente vai conseguir os japons"?
         Cooiomal - Como o senhor explica o fato do seu
conterr -
       neo Milito, mais conhecido como general Garrastazu
Mdici,
       no t-lo convidado para suas bodas de ouro?
         AB -- No me importei. Nossas farrilias no se
davam.
       Quando anunciaram que um filho de Bag era o mais novo-
       presidente da Revoluo, meu pai observou:---Bemfeito,
quem
       inandou sair daqui"?
         Cooiornal - E a tal histria de poder e sexo? Dizem
que
       quem tem o primeiro no faz o segundo. Qual  a sua
opinio?
         AB - Pelo contr rio, tch.O poder  estimulante. Quem
t
       no governo tem sempre teso de sen-iinarista. S muda o
objeto
       da paixo do homem. Em vez da mulher dele,  a nossa
pacincia.

       130

         Coojornal - Qual a sua opinio sobre Fernando
Gabeira,
       Gilberto Gil, Caetano Veloso, Eduardo Mascarenhas, o
jornal
       Lampio, Joo Figueiredo e Jos Asmuz?
         AB -O Fernando Gabeira me lembra um causo. L  em Ba-
       g tinha um bolicho chamado Bagos. Era onde a indiada
se reu-
       nia pra coar o saco, tomar cana com plvora e contar
histria de
       pelotense. Se passasse homem bem barbeado pela porta,
l  vi-
       nham os assobios e os gritos de "A, Rosinha" ou "T
passando o
       Barribi". Mas volta e meia aparecia um moo no bolicho.
Bota de
       salto alto, cabelo mechado, brincos e passinho de quem
no quer
       peid . Entrava, ia at o balco e tomava uma Fanta uva
com o
       dedinho levantado. E a indiada quieta. A o moo
rodopiava e
       saa. E se algum estranhasse aquele respeito com o
veado, ouvia
       logo a explicao: para entrar ali daquele jeito, o
cara tinha que
       ser macho. Muito macho. Quanto ao Gilberto Gil, o
Caetano
       Veloso, o Eduardo Mascarenhas, o Joo Figueiredo e o
Jos As-
       muz, s posso dizer um troo, tch. Pelo menos dois tm
a descul-
       pa de ser baiano.
         Coojornal - Uma pergunta de analista: como foi a sua
in-
       fncia?
         AB - Uma infncia normal do interior.O que eu no
       aprendi dentro do galpo aprendi atr s do galpo.
         Cooiornal -O senhor j  sentiu um bafo quente na nuca?
       Como reagiu?
         AB - j  senti, sim.O bafo da tua me, que errou de
lado.
       Tu s no leva um joelhao porque  da imprensa nanica
e eu no
       sou provalecido.
         Cooiornal - Calma, calma. Qual a influncia da
bombacha
       no machismo gacho?
         AB - A maior ameaa aos machos do Rio Grande, de ba~
       geense at marchand de tableau, so esses tais de
gins.O gacho 
       o que  porque a bombacha dava espao. Uso bombacha at
no
       consultrio. Quando a ocasio  social uso as de
enfeite do lado.
       Mas nada que brilhe, seno j   bichice. Pra apertar
meus fundi-
       lhos s mo de china.
         Coojornal - E agora a ltima pergunta: o que a
Sociedade
       Psicanaltica de Bag vai achar desta entrevista?
         AB - A Socieiade Psicanaltica de Bag se rene
semanal-
       mente no CTG Rinco da Sublimao Consciente, o nico
lugar

       131

       do Estado em que mancha de gordura na toalha de papel 
inter-
       pretada na hora. Eles me consideram uma rs desgarrada
porque
       sou muito radical. S no me expulsaram ainda porque
querem
       me capar antes.

       132


       A cr"nicaO Casamento foi publicada originalmente na
revista
       Cl udia com o ttulo de Casamento, no meu tempo, no
era as-
       sim... Os contosO Manual Sexual eO Dia da Amante foram
       publicados na revista Playboy, o primeiro sob o ttulo
deO
       Mais excitante -manual de sexo do mundo". Ambos esto
sendo
       reproduzidos com a autorizao da Editora Abril Ltda.

       Os outros contos e cr"nicas foram publicados no jornal
Zero
       Hora, na Revista do Domingo, do Jornal do Brasil e na
revista
       Careta. A entrevista com o analista de Bag foi
publicada no
       Cooiornal.
#



       OUTROS TTULOS DA COLECO

       JORGE AMADO
       Capites da Areia

       JOS SARAMAGO
       A jangada de pedra

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ROSA
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do serto

                                             JOO UBALDO
RIBEIRO
                                            Viva o povo
brasileiro

                                               GRACILIANO
RAMOS
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       FERNANDO PESSOA
        Ficces do interluJt;'-

       MANUEL BANDEIRA
       A estrela da vida inteira

       G*

                                               MACHADO DE
ASSIS
                                       Memrias pstumas de
Br s Cubas

       G*

       NLIDA PI&ON
       A casa da paixo

       G*

                                          CHICO BUARQUE DE
HOLLANDA
                                                 O estorvo

                                              CARLOS HEITOR
CONY
                                                Quase memria

       G*

                                             JOO UBALDO
RIBEIRO
                                          Vncecavalo e o
outro povo

       G*

                                              EUCLIDES DA
CUNHA
                                                  Os sertes

       G*

       JORGE AMADO
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